Dando Nota

Rodrigo Alves

A garotinha no teatro

peralta

Publicado no Jornal de Piracicaba em 26 de setembro de 2014
Página 2 do caderno Cultura

A garotinha vai ao concerto de música erudita no teatro. Pele clara como leite, de vestido azul com bolinhas vermelhas. Balança os braços e mostra as pulseiras. Corre de um lado ao outro com a ponta dos pés. Exibe saltitante a melissinha. Lindinha e fofinha. Irritante. Minha vontade é encontrar a mãe para esbaforir: “toma que o filho é teu!”.

Tento me concentrar no maestro e nos instrumentistas. Não adianta o esforço. O barulho incomoda. A garotinha, sem mãe e sem pai, com sete ou oito anos, analisa os adultos acomodados e incomodados nas poltronas. Acha que ela é dona do espetáculo. Pouco se importa com os olhares. Sorri. Encara. Corre. Cumpre com êxito as peraltices. Continua a incansável peregrinação pelo teatro.

Olho no relógio. O concerto começou há dez minutos. Quero sussurrar nos ouvidos da garotinha: “vem aqui, coisa linda! Cadê seus papais?”. A frase fica no campo imaginário. Observo as pessoas ao redor. Seus pescoços percorrem um ângulo de 180 graus num vai e vem tão constante quanto os rápidos passos da bonequinha de porcelana. Está encantada com o imponente espaço.

A menina se aproxima. Desliza delicadamente os dedos nos encostos das poltronas. Percorre uma a uma. Chega a minha vez. Entoo uma onomatopeia: “ei, pssssiuuu!!!”. Não resolve. “Gente chata, quem manda gostar de música clássica?”, deve ter pensado ela. Quem fica corado sou eu.

Ao meu lado, minha amiga se diverte com o meu mau humor. “Calma, logo ela vai se cansar”, diz. Que nada. A pequena está plugada no 220. Descobre um vão entre a escada. Vai naquela direção e fica por alguns minutos. Agora o barulho vem dos chacoalhões dos braços. Os balangandãs da pulseira. Matraca da Semana Santa.

A culpa é da garotinha ou dos pais insensíveis, que a deixaram livre e leve? Pais que, antes da sessão, deveriam ter recomendado disciplina. Que poderiam exigir que ficasse sentada. Que precisam ensinar bons modos, levando-a com mais frequência aos espetáculos infantis. Assim, aos poucos, estaria ciente que uma sala de espetáculo requer silêncio.

Quem seriam os pais do anjinho rebelde? Faço minhas apostas. Estavam com os celulares ligados, atenderam ao telefone no ápice da apresentação, tiraram fotos com flash e azucrinaram com a tela luminosa dos aparelhos. Ou então eles assistiram ao espetáculo sem notar a bagunça, sem se importar com a filha. Somente eles, não o resto da plateia.

Não sou antipático com crianças. Não vejo problemas em levá-las ao teatro, aos concertos de música clássica e ao cinema. A cultura deve estar acessível a todas as faixas etárias. É dever dos pais incentivar bons hábitos na infância. Uma tarefa que requer discernimento. Se a criança é serelepe, contratar uma babá ou deixá-la aos cuidados dos avós são boas alternativas.

Daquela noite de torturas, fiquei preso ao exemplo do casal das poltronas da frente. Com um bebê de quase um ano, se posicionaram estrategicamente nas laterais. Pai e mãe se revezaram na saída e na entrada da sala aos primeiros resmungos do garotinho. Foram discretos e silenciosos. Nem por isso deixaram de curtir o concerto. Nem por isso incomodaram. Eles merecem aplausos.

Devo ter ajudado a queimar Joana d’Arc em praça pública em outra encarnação. Paguei todos os meus pecados de uma só vez. Fiz uma grande manobra para ir ao teatro. Cheguei mais cedo ao trabalho. Negociei a troca do plantão noturno com um colega. Tudo para estar no concerto. Mas o doce de candura não deixou a música fluir naturalmente aos ouvidos.

4 comentários em “A garotinha no teatro

  1. Rodrigo Alves
    24 de outubro de 2014

    Era uma senhora de bastante idade, bisavó. Queria pedir desculpas, disse que mostrou o artigo ao pai, que estava no concerto, e também para a avó, e que na próxima a menina vai sem os balangandãs e ficará quietinha. Achei uma graça a preocupaçao dela!

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  2. fi80s
    21 de outubro de 2014

    kkkk pra desculpar ou maldizer?

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  3. Rodrigo Alves
    17 de outubro de 2014

    Só precisava te contar uma coisa: a avó da garotinha me telefonou… hahaha.

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  4. fi80s
    13 de outubro de 2014

    Otimo texto, Ro, e bem apropriado a invasão contemporânea de crianças em eventos culturais.

    Bom, diferentemente, eu vejo problemas em leva-las a teatros, concertos e quaisquer situações em que ficarão alertas, inquietas e PRINCIPALMENTE incomodando os adultos. Sou chato, não tenha a mínima paciência, não dou conta nem dos meus sobrinhos quem dira dos filhos dos outros. Crianças para mim são como Monet: so eh bom se visto de longe, não se deve tocar, aparentemente não vejo mais que um borrão de cores e a grande maioria das pessoas gosta ou diz que gosta, porque eh chato falar que não se gosta…

    Sou super Samantha Jones num episódio de Sex and the City: crianças não deveriam ser permitidas em espaços privados reservados. Pra elas tem as pracas, a beira do rio, o bosque, buffets, hopiharis, sitiodagalinhapintadinha, qualquer evento que aconteça num domingo antes das 3 da tarde, whatever…

    Anseio pelo dia em que chegarão ao Brasil espaços “children free”. Ate la, continuo pagando as pedras que atirei a cruz.

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Publicado às 26 de setembro de 2014 por em Opinião e marcado , , .

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