Dando Nota

Rodrigo Alves

O destino incerto dos orelhões

orelhao

Publicado no Jornal de Piracicaba em 19 de setembro de 2014
Página 2 do caderno Cultura

Metade dos orelhões da cidade deve ser extinta, informou o Jornal de Piracicaba na edição de 5 de setembro. A medida pode se estender aos 60% dos 843.367 telefones coletivos espalhados pelos municípios brasileiros. Segundo a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), a maior parte da população considera os aparelhos como supérfluos e antiquados, o que justificaria a decisão, amparada também na premissa de que os serviços de telefonia fixa e móvel estão disponíveis para quase a totalidade das regiões do país.

Com direito a fichas metálicas comercializadas em botecos, restaurantes, supermercados e livrarias, os orelhões fizeram história. Foram revestidos de laranja, verde limão, amarelo e azul. Artistas brincaram com seu formato e o aproveitaram para intervenções com grafites e outras plataformas. Seus cartões indutivos eram itens colecionáveis, disputadíssimos. Todo brasileiro tinha um cartão telefônico no bolso. Num período não muito distante, havia filas para utilizá-lo, fosse para pedir pizza, ligar para a paquera ou para um parente distante. Hoje, mesmo em boas condições, encontram-se tristes e desolados, à espera de usuários. Estão roxos de vergonha.

Seguindo um raciocínio simples, a extinção dos orelhões parece prudente. Há mais aparelhos móveis que gente no Brasil. Somos 200,4 milhões de pessoas, versus 276,3 milhões de celulares. Sem contar que os telemóveis, como diriam os portugueses, estão cada vez mais acessíveis ao bolso. Perder cinco minutos de conversa ao telefone na esquina também não faz sentido. É muito tempo numa rotina de 24 horas. E a segurança? O descuido pode custar a carteira!

A Anatel apresenta alguns números que justificariam o corte. Estima-se que 80% dos orelhões concretizem apenas quatro chamadas por dia, o equivalente a 120 minutos por mês. Por outro lado, a Teleco, especializada na consultoria em serviços de telecomunicações, aponta o consumo de 128 minutos mensais por aparelho de celular. Em resumo, o tempo é praticamente o mesmo. Podemos até comprar smartphones modernos em 500 prestações, mas falamos pouco ao celular ou mesmo ao telefone fixo.

Nos últimos anos, governo e as teles discutem a repaginação do orelhão. Mais moderno e dinâmico, 100% digital, com acesso à internet, envio de mensagem de texto, vídeo chamada, consulta ao mapa da região e função hotspot. O projeto piloto teve início em Florianópolis, pela empresa Oi, responsável por mais de 70% dos aparelhos no Brasil. A eventual expansão ocorreria entre 2016 e 2020. Com destino incerto, no entanto, primeiro está sendo feita uma consulta pública no site da Anatel, até 26 de dezembro, para que os usuários apresentem suas contribuições.

No cruzamento desses dados, fica mais fácil compreender que o problema não é apenas a baixa adesão aos telefones públicos. As empresas que mantém os aparelhos nas ruas são as mesmas que comercializam os planos de telefonia móveis e fixos, além dos famosos combo nas TVs a cabo. Elas querem prender o bolso do consumidor a partir do que lhes oferece mais lucro. Aparecem com o argumento do alto custo na manutenção (duas vezes e meia a mais que as receitas das ligações), mas pouco fazem para que os orelhões voltem a ser utilizados no país.

Resta saber se a população quer a permanência dos orelhões, se eles continuarão como objetos incorporados à paisagem, restritos aos casos emergenciais, ou se ainda podem disputar com os smartphones, SMSs, WhatsApp, ICQ e Messenger. Longe da nostalgia, lembrei de um comercial da Telesp, bem antigo. Um orelhão caia e definhava. As pessoas se aproximavam para observar a cena. Uma voz infantil informava a morte diária de pelo menos 20 orelhões “indefesos” na capital paulista, vítimas da brutalidade e da ignorância humana. Ao final, uma senhora aparecia desesperada à procura do aparelho, já coberto por um jornal, e surgia a mensagem: “a cidade enlutada exige que isso tenha um fim”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 19 de setembro de 2014 por em Opinião e marcado , , , , , , .

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
%d blogueiros gostam disto: