Dando Nota

Rodrigo Alves

O fim do livro digital

Publicado no Jornal de Piracicaba em 5 de setembro de 2014
Página 2 do Caderno Cultura

De uns tempos pra cá, literatos de plantão entraram em crise existencial. Desolados, sentiram-se traídos pelos livros digitais, os eReaders. Hastearam bandeira, demarcaram território e empunharam cartazes de protesto. Tudo para manter a honra dos dedos calejados com o folhear das páginas. Caindo na mesmice, o assunto beirava o blá, blá, blá, até que surgiu um novo capítulo para reacender a chama. O livro no papel é mais importante no processo de leitura, segundo a Universidade de Stavanger, na Noruega.

O estudo da universidade avaliou o nível de leitura de 50 pessoas. Metade leu uma história de 28 páginas num Kindle e a outra em papel. O primeiro grupo saiu na desvantagem, pois apresentou dificuldades para reconstruir 14 eventos na ordem correta e teve baixo desempenho na memorização, no envolvimento com os personagens e na compreensão do conteúdo. A professora Anne Mangen, responsável pelo teste, concluiu que o folhear gradual do papel altera os sentidos cognitivos e emocionais das pessoas e aumenta o nível de empatia, imersão e coerência narrativa. É isso mesmo: o cérebro humano gosta mais do contato da pele do dedo com o papel, das páginas volumosas e das folhas encadernadas.

Como parte de um esforço europeu sobre os impactos da digitalização da leitura, a mesma universidade constatou menor compreensão na leitura de textos em PDF, na tela do computador. Esse outro estudo sugere que a sensação da leitura digital é mais rápida, mais fácil e, por isso, menos cuidadosa. Como as escolas estão substituindo os livros didáticos por Kindles, tablets e outros dispositivos eletrônicos, os pesquisadores querem encontrar novas evidências e subsidiar editoras e instituições de ensino sobre os tipos de textos menos prejudiciais no digital e os de melhor assimilação no papel.

O fato é que essa balela de morte de uma mídia e ascensão de outra tornou-se mais intensa a partir do referencial da indústria fonográfica. Os vinis perderam para os CDs e, depois, o MP3 matou todos eles. No caso do livro, a discussão criou dois lados muito distintos: o clube do papel e os geeks. Dá até nome de filme. O primeiro, imune aos ácaros impregnados nas páginas, vinha com o papo do “adoro cheiro de livro”. O segundo, rodeado de gadgets, se dizia pronto para desvelar o mundo sem fronteiras das telas de retina. A pesquisa, neste caso, coloca um basta na discussão simplista e mostra que o problema é maior.

Eu leio no papel e no tablet sem fazer dramas. Quando vou comprar um livro, ainda fico em dúvida entre um ou outro formato. A decisão final recai sobre o preço: o mais barato ganha a minha simpatia. Quase sempre escolho obras com tinta preta em papel branco para assuntos profundos e demorados ou de caráter acadêmico. Se o livro é pesado, a ideia do e-book cai bem. O mesmo acontece se falta luminosidade ao ambiente ou estou numa viagem longa, de avião ou ônibus. Levo quatro ou cinco títulos no gadget e libero espaço na bagagem.

No caso da leitura diária de jornais e revistas, os tablets mudaram meus hábitos radicalmente. Desde 2011 recebo as publicações preferidas pela loja virtual. Nunca consegui, no entanto, mensurar se o formato deixou minha mente mais dispersa, mas agora penso seriamente em reavivar o velho hábito, já que as novas pesquisas indicam que os estímulos dos eletrônicos nos deixam sem foco, habituado com a leitura fragmentada e com dificuldade para desenvolver o raciocínio lógico e criativo. Talvez o próximo passo seja formar uma pilha de tablets e eReaders, embebê-los em álcool e armar uma grande fogueira digital!

2 comentários em “O fim do livro digital

  1. Rodrigo Alves
    5 de setembro de 2014

    Mari, tudo bem?

    Acabo de receber o seu comentário no meu blog, agradeço a visita e o retorno.

    Concordo – e muito – com as suas considerações sobre a importância dos e-books. E, diga-se de passagem, eu prefiro ser queimado junto do meu tablet…rs.

    Além do que comentou sobre o acesso dos escritores, o e-book possibilita uma divulgação “mais democrática” nas novas ferramentas de tecnologias, definidas até pelo próprio autor.

    Sem contar no campo acadêmico, uma grande conquista para pesquisadores em todo o mundo, diante de um “papel” ainda inacessível, inclusive para o bolso de muitos escritores e leitores.

    É um assunto que ainda rende um bom caldo.

    Grande abraço, bom fim de semana!

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  2. Mari Sbravatti
    5 de setembro de 2014

    Rodrigo, Boa tarde!
    Achei bastante interessante a sua matéria, mas acredito que os defensores do papel deixaram de abordar um foco muito importante.
    Explico: O E-book, trouxe na bagagem a possibilidade da chamada “auto publicação”. E com isso abriu portas para novos autores que jamais teriam seus originais sequer recebidos pela área de seleção de uma grande editora.
    Eu sou um exemplo vivo disso. Depois de anos escrevendo crônicas para mim mesma e nas redes sociais, recebi um convite do projeto Publique-se da Livraria Saraiva e resolvi arriscar. Sou um rosto anônimo, e a única publicação que eu tinha até então, foi a de uma poesia na extinta revista Querida, quando eu tinha apenas 15 anos.
    Depois da publicação do meu E-book, criei uma página com o mesmo nome, ganhei alguns seguidores e até um lugarzinho ao sol na mídia. Fiz uma matéria no JP com a Jéssica Souza, e a partir daí outras portas foram se abrindo.
    É lógico que temos que ser realista, mas o que antes era utopia, com a possibilidade de auto publicação, virou uma possibilidade.
    Com isso, vários talentos estão ganhando espaço.
    Abraço.
    Mari Sbravatti.

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Publicado às 5 de setembro de 2014 por em Opinião e marcado , , , , , .

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