Dando Nota

Rodrigo Alves

Cobaias humanas

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 18 de julho de 2014
Caderno Cultura – Página 2

O Facebook e acadêmicos das universidades de Cornell e da Califórnia publicaram recentemente um artigo científico sobre a manipulação das emoções dos usuários na rede social. Desde então, surgiram debates inflamados sobre a violação dos princípios básicos da privacidade. Longe de se esgotar, a discussão também recai sobre como deixamos de ser usuários na internet e nos tornamos produto ou simples cobaias humanas.

Ao modificar o conteúdo do feed de 700 mil usuários americanos durante uma semana, o estudo descobriu que quanto mais histórias negativas os usuários recebiam, mas propensos ficavam a escrever um post negativo (e vice-versa). Segundo o Facebook, o intuito foi avaliar se a exposição alterava o comportamento dos internautas.

Enquanto instituições questionam o Facebook sobre a legalidade em aplicar uma pesquisa sem consentimento das pessoas, preocupa-me mais o que não foi divulgado. O sujeito que já estava deprimido, levantou da mesa de trabalho e pediu demissão? Deu fim à própria vida se jogando do 15º andar? Saiu do computador e comprou um carro zero? Pediu a namorada em casamento? Usei exemplos extremos, mas que suscitam a tese de que os algoritmos das máquinas controlam a mente humana.

É ainda mais grave o envolvimento de duas instituições de ensino com recursos do governo americano. Como pesquisadores, eles deveriam, no mínimo, explicar com antecedência os métodos aplicados, os objetivos do estudo, além de eventuais riscos ou desconfortos. São práticas já adotadas no meio acadêmico e que foram esquecidas no período em que os 700 mil testes foram aplicados e analisados.

Embora este tenha sido o episódio que mais levantou polêmica, a prática de tratar os usuários como “ratos de laboratório” é recorrente no Facebook. Isso vem desde que a rede social percebeu sua força. E continuará enquanto for soberana na internet. No ano passado, a empresa “sondou” os usuários que espalham notícias falsas. Em 2011, se debruçou sobre os compartilhamentos de conteúdo de notícias on-line e a forma como os usuários influenciavam seus amigos a curtir páginas patrocinadas.

A mais grave das pesquisas, no entanto, teve pouca repercussão. Ocorreu em 2010, nas eleições para governador dos Estados Unidos. Uma simples mensagem instigou o voto de 340 mil eleitores com tendências a se abster das urnas. O experimento está em vias de se repetir em 5 de outubro deste ano em terras brasileiras. A empresa já anunciou a intenção em disponibilizar o botão “I’m a Voter” (Sou um Eleitor) para que o usuário compartilhe sua ida às urnas. A pergunta pode parecer retrógrada, mas se o Facebook manipula os sentimentos, não pode também estimular o voto para determinado candidato?

Concordo que as empresas de tecnologia precisam de pesquisas para aprimorar as experiências dos usuários e o próprio desempenho, mas o Facebook foi ainda mais longe. Quis influenciar a opinião pública e mostrou que tem poder para isso. Do ponto de vista do usuário, a pesquisa traz à tona, pelo menos, a discussão sobre a importância de políticas públicas para o uso das informações na internet, incluindo invasão de privacidade e venda de informações pessoais a terceiros. Nisso o Brasil se adiantou com o Marco Civil da Internet, mas a convenção deve ser global, objetivando sempre o bem do consumidor final, o usuário comum, que pouco entende de novas tecnologias e navega de forma despretensiosa.

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