Dando Nota

Rodrigo Alves

No meio do caminho tinha uma pérola

gramatica

Publicado no Jornal de Piracicaba em 25 de abril de 2014
Página 2 do Caderno Cultura

Esta semana recebi um cutucão on-line que doeu. Não o “Cutucar” do Facebook, atribuído como flerte. Foi uma cutucada certeira,que representou alerta. Um camarada jornalista, inbox, escreveu: “Rodrigo, você cometeu um erro no seu artigo”. Encerrei no mesmo instante a conversa. Minhas bochechas coraram. As orelhas arderam. Fui tomado pelo pensamento de que outras pessoas também notaram e que iriam debochar do desleixo. No meio do caminho tinha uma pedra, escreveu Drummond. No meu caso, no meio do texto tinha uma pérola.

Sem perguntar onde estava o dito-cujo, pego as páginas amontoadas do jornal para reler o artigo. Nestas horas, a melhor solução é recorrer ao material impresso. “Os erros só aparecem no dia seguinte, no papel”, dizia meu primeiro editor de jornalismo. Você produz o texto, lê, relê, o editor revisa e lá está ele, esnobe. Uma bruxaria carinhosa do departamento de impressão.

Faço a leitura em voz alta, temendo o risco de atropelar as palavras.Como nos tempos de alfabetização, sigo a frases com o dedo indicador. Do primeiro ao quinto parágrafo a vitória está garantida. Já respiro aliviado, mas a expressão estraga-prazer causa tremedeira. Meus olhos parecem não acreditar. As bochechas voltam a corar. Um erro de condordância abre o sétimo parágrafo.

O dia seguiu amargo depois de encontrar o brutamontes. Era como se eu, depois de anos de estudo, ainda proclamasse com todas as letras a expressão “para mim fazer”. Ou que depois de certa bagagem jornalística fosse capaz de redigir “a grande maioria” e “há 10 anos atrás”. Um caipira interiorano que incorporou o “nóis fumo” e o “nóis vortemo”.

Onde estava a minha atenção ao escrever? E ao revisar? Tento me consolar. O erro nem deve ser tão grave, em tempos de excessos de exclamações, reticências e abreviações na internet. Se passou batido pelo crivo do editor, os leitores não notaram. Mas a síndrome do perfeccionismo insiste. Se fosse falha de digitação, uma troca de letra, as pessoas entenderiam. Quem sabe a crase, por muitos considerada complexa.

Há jornalistas que são taxados de sensacionalistas. Outros de preguiçosos. Mas o pior insulto é “jornalista ruim de texto”. E se alguém conquista o rótulo, para extraí-lo é um processo demorado. Assim como é obrigação de um médico-cirurgião fazer uma boa cirurgia, de um nutricionista cuidar do seu corpo e de um dentista zelar do próprio sorriso, o jornalista deve escrever bem (e certo). O texto é sua ferramenta de trabalho, sua principal vitrine.

Desde setembro de 2012, quando aceitei o convite para publicar artigos no JP, a minha intenção é produzir textos claros, leves, objetivos e coesos. Se a semana é tranquila, a produção segue em doses homeopáticas e as linhas finais são encerradas horas antes do prazo. Em outras ocasiões a escrita sai em menos de uma hora. É no processo de corta aqui, reduz ali e condensa acolá que as inconveniências desabrocham entre os parágrafos.

Recuperado do susto, retorno ao universo virtual e agradeço meu amigo pelo alerta. Como resposta, recebo um “acontece com todo mundo”. Ele completa: “perto do que faz a imprensa atualmente, não é nada”. Certo, é um bom argumento para quem está numa redação diária, com vários textos para apurar e com a pressão do deadline. Meus colegas do jornalismo diário merecem perdão, e talvez eu também, mesmo com um artigo por semana para produzir.

Com a falha de semana passada, acumulo mais um item para a minha coleção de pérolas. A primeira foi chamar de Núbia Óliiver uma dançarina local com sobrenome parecido. Já troquei a profissão de astrônomo por astrólogo e escrevi “bom censo” numa entrevista com Pasquale Cipro Neto, quando o correto era “bom senso”. E denominei de Uiapuru a obra Abaporu de Tarsila do Amaral numa entrevista para a TV. Situações embaraçosas, convertidas hoje em piadas e boas risadas.

Surge um novo conforto ao recordar a mesma entrevista com Pasquale, feita há 10 anos. Ele declarou que não existe texto perfeito e que é preciso dar um desconto até para jornalistas e linguistas. Clarice Lispector, no livro A Descoberta do Mundo, afirmou que escrever é uma maldição que salva. É essa a sensação que tenho todas as semanas, ao reservar boas horas para os artigos. Mas se encontro um erro entre as palavras, é com os versos de Gabriel García Márquez que me identifico: “Quando escrevo, morro. Quando não escrevo, também.” Ouso completar: se escrevo errado, é infarto fulminante!

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Publicado às 25 de abril de 2014 por em Opinião e marcado , , , , , , .

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