Dando Nota

Rodrigo Alves

Keep Calm e deixa de recalque

valesca popozuda

Publicado no Jornal de Piracicaba em 11 de abril de 2014
Caderno Cultura – Página 2

A primeira vez que ouvi a expressão beijinho no ombro, chorei de tanto rir. Foi dita entre cervejas e petiscos por uma amiga bem-humorada, adepta de frases de efeito e que também se “auto-beijou”, movimentando a cabeça de forma caricata. A pauta do bate-papo era o recalque alheio e quis saber o autor da pérola. Ela pouco pode acrescentar. Logo conheci Valesca Popozuda e seu novo hit.

Esta semana, ao descobrir que a música motivou uma questão na prova de filosofia do ensino médio no Distrito Federal, ensaiei entrar em contato com o professor Antônio Kubitschek para reivindicar parte dos créditos. Beijinho no Ombro foi amor à primeira vista. Assim que ouvi, classifiquei a Popozuda como grande pensadora da atualidade. Eu juro: bradei isso em várias rodas de conversa.

Me julguem! Joguem pedras, eu aceito! E até eventuais blocks nas redes sociais dos literatos ou defensores da honra de Chico Buarque e cia limitada. Podem me chamar de brega também, se for o termo mais adequado. Não consigo pensar diferente, por incrível que pareça. O hit de Valesca deve ser entoado em todos os cantos, a exemplo do que fez a presidente Dilma para agradecer os 350 mil fãs no Facebook e o Coral da USP na recepção aos calouros de direito do largo São Francisco.

Jamais pensei em citar o vocalista da banda Detonautas, Tico Santa Cruz. Só que desta vez (talvez a única) eu concordo com o rapaz. Não é o tipo de música que ouço no som do meu carro, mas respeito a manifestação legitima do funk carioca e de outras culturas. E confesso: no passado achei o máximo a música Dança do Quadrado, da cantora Sharon, e o Show das Poderosas, da também funkeira Anitta. As três letras, cantadas por Maria Gadú, Caetano, Chico ou qualquer outro bamba da MPB, seriam ostentadas pelos ‘cults’ de plantão.

Responda “a si mesmo” e analise o seu “eu interior”, com bastante silêncio para não ter o risco de manchar a própria honra. Numa roda de conversa, nunca desejou vida longa aos inimigos, para que vejam, a cada dia, a sua vitória? Ah moleque, te peguei! Você cantou infinitas vezes Beijinho no Ombro e elevou, sim, a Popozuda ao status de pensadora contemporânea! Se não conhece a cantora, recomendo boas aulas com o professor Antônio Kubitschek e um banho no Piscinão de Ramos com Regina Casé.

A famigerada questão na prova incomodou por inovar e se distanciar do tradicional padrão de qualidade acadêmico. Devemos reconhecer também a capacidade do professor em captar o comportamento dos jovens e levar a discussão para a aula. Quisera eu ter um mestre descolado no colégio, com a mente aberta para entender a linguagem da época e que dialogasse, sem preconceitos, com a minha geração. Se pudesse cumprimentaria o professor Kubitschek pessoalmente. Ele tirou da zona de conforto a nossa acomodada sociedade e os emergentes intelectualóides das redes sociais.

Não sou a pessoa mais adequada para produzir uma crítica musical sobre a qualidade da letra, recursos melódicos ou questões técnicas no clipe Beijinho no Ombro, tão menos tenho intelecto para comparar a cantora a Jean-Paul Sartre, Michel Foucault, Pierre Lévy ou Zygmunt Bauman. Concordo que os versos da canção contém palavras de baixo calão como tiro, porrada e bomba, que pelo menos não difundem a pornografia. Mas reconheço: Valesca entende de marketing viral, tirou sua música dos guetos e ocupou o vocabulário de diferentes classes sociais e faixas etárias. Já cantei, em voz baixa, várias vezes “pegue a sua inveja e vá pra…”, da mesma forma que “fique quietinho aí no seu quadrado”, em referência aos versos da cantora Sharon.

Para quem acha que Valesca é cantora de um sucesso só, é bom se preparar, pois a moça está pronta para o combate. Em breve sai o clipe da música Tá pra Nascer Homem que vai Mandar em mim, com potencial para ser mais um hit após a recente campanha Não mereço ser estuprada. A letra protesta contra a violência doméstica. Valesca, além de grande pensadora, será daqui a pouco uma nobre feminista, condecorada pela presidente Dilma no Palácio do Planalto. E se nada der certo, ela pode virar bailarina, seguindo o mesmo caminho da ex-BBB Tatiele. Aos estressados, resta dizer: “Keep Calm e deixa de recalque”.

Em tempo, recomendo essa charge animada de Maurício Ricardo. É risada garantida:

http://charges.uol.com.br/2014/04/09/cotidiano-valesca-a-pensadora/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

#PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP A Arte em Bronze, exposição que será aberta nesta sexta-feira, 7, na Pinacoteca Miguel Dutra, às 20h, reúne obras de 34 artistas do Brasil e do exterior. Visitas até 29/7, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Entrada gratuita. #Piracicaba250anos
%d blogueiros gostam disto: