Dando Nota

Rodrigo Alves

Ocupar a memória para não esquecer a nossa história

Ilustração a partir da fotografia de Paulo Pinto/Fotos Públicas

Ilustração a partir da fotografia de Paulo Pinto/Fotos Públicas

Publicado no Jornal de Piracicaba em 4 de abril de 2014
Página 2 – Caderno Cultura

Com o aniversário de 50 anos do Golpe de Estado no Brasil, ouvi de uma pessoa que a imprensa vem discutido o assunto de forma exaustiva. A minha “cara de planta” foi imediata. “Não quer ler? Vire a página. Cansou do que passa na TV? Mude de canal!”, mentalizei a frase, sem expressá-la, e mudei de assunto em vez de partir para o enfrentamento. Prefiro acreditar que a enxurrada de notícias tem função formativa, em especial para a geração que só ouviu ou estudou a Ditadura Militar nas escolas, como é o meu caso.

Como a declaração veio de alguém “teoricamente” bem instruído, ela causou estranhamento e persistiu na memória por alguns minutos. Encontro o artigo de Marcelo Rubens Paiva em O Estado de S. Paulo, com o título “Tortura: missão cumprida”. A autora do compartilhamento nas redes sociais, a jornalista Beatriz Vicentini, fez a seguinte observação: “Novas gerações cantam músicas como London, London; Aquele Abraço; e Tô Voltando sem conhecerem sua história. Tanto quanto pouco se conhece o contexto da Lei da Anistia, que insistem em tornar imutável”.

Envolto nessa teia de pensamentos simultâneos e dessincronizados, tive que reconhecer: por mais antenada que seja a minha geração, está longe de saber o que os 21 anos de Golpe representaram aos que nos antecederam. Na escola, lembro das enfadonhas aulas de história, incapazes de transmitir os conceitos e as torturas que se alastraram pelo país. E tivemos também o silenciamento da sociedade, que marchou para a industrialização acelerada pós-democratização na tentativa de esquecer o passado triste. Após certo tempo, está mais que na hora de colocar o dedo na ferida e fazer, sim, ela sangrar.

A informação em demasia sobre o Golpe pode ser estafante para alguns, mas sem a luta e a morte de muitos protagonistas da história não teríamos assegurado o direito do livre pensar e tão menos o espaço para manifestá-lo em público, da forma como fazemos nas redes sociais. Ainda que essa manifestação esfregue na nossa cara os resquícios do conservadorismo no país, como a tentativa frustrada de uma nova Marcha da Família com Deus pela Liberdade, o voto que ainda assegura o poder a figuras como Marco Feliciano e Jair Bolsonaro, o extermínio dos 111 presos no Carandiru e a punição aos policiais depois de 22 anos e a mentalidade, de 65% da população, de que mulher de roupa curta merece ser estuprada. Sem contar a porção de jovens com o discurso de que o militarismo seria melhor para o país na conjuntura atual.

Meio século após o Golpe Militar que impôs 21 anos de silêncio e massacres, a sólida democracia no Brasil por vezes bambeia. Por isso a importância de a imprensa reler os fatos históricos, de promover debates em centros acadêmicos, de editar novos livros e, principalmente, de marcar posição diante das atrocidades cometidas pela “dita dura, maldita, má e maldita dura Ditadura… formada por uma tropa de covardes-facínoras que matou a quem devia proteger”, como escreveu a dramaturga Ana Souto no artigo “Adeus, Tristes”, no blog Transversos, que recomendo leitura. Não sei quem é o autor da frase, que se encaixa no contexto: “devemos ocupar a memória para não esquecer a nossa história”.

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