Dando Nota

Rodrigo Alves

Saudades das videolocadoras de bairro

videolocadora2

Publicado no Jornal de Piracicaba em 21 de fevereiro de 2014
Caderno Cultura – Página 2

Sempre que caminho com mais calma pela rua Dom Pedro 2º, é impossível não olhar para a loja fechada em frente ao prédio da FOP (Faculdade de Odontologia de Piracicaba). Ali ficava uma das locadoras de vídeo da cidade, onde passava boas horas em busca de lançamentos e obras clássicas da sétima arte. Talvez não houvesse razões para a nostalgia. Hoje o catálogo de filmes é vasto na internet ou no serviço por demanda da TV a cabo, mas o sentimento é involuntário.

Além dessa locadora, havia uma outra que batia cartão, na rua Alferes José Caetano, entre as ruas Voluntários de Piracicaba e Regente Feijó. E quando viajava para a casa dos meus pais, em Minas Gerais, nos fins de semana ou períodos de férias, recorria a uma loja na cidade vizinha, Ouro Fino, onde fiz o meu primeiro cadastro aos 9 anos, quando ganhei o primeiro videocassete, item cobiçado pelas famílias, o suprassumo para a época.

Em comum, as três casas de vídeo representaram, num passado recente, ambientes afetivos. Eram mais que simples espaços para a escolha dos pré-históricos VHSs e dos DVDs. Quando a tecnologia dos blu-rays chegou, pouco elas puderam usufruir, pois já estavam arcaicas e esquecidas do público, que se viu aliciado pela oferta de DVDs baratos dos camelódromos, a assinatura de filmes na internet e a televisão digital.

As pequenas locadoras eram espaços de encontros. Vez ou outra você encontrava um vizinho, ganhava minutos de prosa e descobria o gênero apreciado pelo outro. Os pais acompanhavam os filhos, ajudavam na escolha das fitas e vivenciavam, no ambiente familiar, as duas horas de aventura, comédia, drama ou suspense de uma obra cinematográfica. Com a locação de um lançamento, era frequente sua casa ser invadida por amigos para a sessão pipoca, ainda que não houvesse uma tela de LED de 40 polegadas.

O sentimento de saudade pelas videolocadoras bateu depois que uma reportagem exibida pela EPTV atestou: nenhuma unidade do gênero foi aberta nos últimos cinco anos em Campinas. Creio que situação parecida ocorra em Piracicaba. As poucas existentes diversificaram o comércio com lan houses, papelarias e venda de itens de informática. Até as lojas de redes foram atingidas e estão mais para um serviço de conveniência do que para uma casa de vídeos propriamente dita.

Tenho consciência que a rotina cada vez mais atarefada contribuiu para esse processo. Ganha quem proporciona agilidade, o melhor preço, mas acima de tudo, o conforto. E quanto a isso, serviços como Netflix são implacáveis: você escolhe, via controle remoto, o título de sua preferência, e em menos de um minuto assiste tudo na televisão, com pagamento na fatura do cartão de crédito. Com as locadoras, ainda há a inconveniência do deslocamento para a entrega da mídia física e, no caso de esquecimento, a dolorosa multa pelo atraso.

Mas a nostalgia pelas pequenas lojas ainda persiste. Havia uma relação próxima com os funcionários ou, em muitos casos, os proprietários-balconistas. Era você entrar para receber uma abordagem personalizada: “chegou um filme que é a sua cara!”. Quando as ofertas eram escassas, boa parte do tempo era gasta com o percurso entre as prateleiras. Às sextas-feiras existiam as promoções alugue quatro e leve cinco. Vez ou outra, a seção “catálogo” nos fazia desvendar uma surpresa atrás da outra. Entre erros e acertos conheci Psicose, de Hitchcock, Cidadão Kane, de Orson Welles, e o longa brasileiro O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte.

Sei que a tecnologia nos fez ganhar muitas coisas boas, mas no caso das locadoras há uma perda. Assim como vimos o MP3 substituir o CD, os vinis darem lugar ao CDs, os VHSs aos DVDs, aos poucos, as videolocadoras fecharão suas portas e talvez isso nem seja notado. Mas lamento essa ausência, mesmo não sendo mais um frequentador cativo. Diremos adeus a uma prática afável e nem sempre robotizada e veremos o fim de uma relação de afeto na forma de consumir filmes. Resta-nos, apenas, a saudade.

3 comentários em “Saudades das videolocadoras de bairro

  1. fi80s
    6 de abril de 2014

    Ro, acho que a facilidade de baixar filmes e series pela internet e acessar produtos e Services de compartilhamento de dados, tipo AppleTV e Netflix levaram ao fim a necessidade de adquirir filmes em versao material… confesso que acho bem mais comodo, mas tb sinto saudades de procurar filmes em prateleiras…
    E olha: acabei de comprar um Xou da Xuxa numero 1 em vinil num sebo virtual, mas vai servir como parte da decoracao de casa! [nao tenho toca-discos!]

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  2. Rodrigo Alves
    21 de fevereiro de 2014

    Concordo, Wenceslau. Aos poucos algumas bandas estão fazendo lançamentos exclusivos em vinil. Já existem lojas especializadas que vendem o aparelho. Mas no caso do VHS, infelizmente, os DVDs substituiram. Tenho muitas fitas em casa e, urgente, preciso convertê-las, pois podem embolorar.

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  3. Wenceslau Castilho
    21 de fevereiro de 2014

    “///.Ainda mantenho com muito carinho Alguns Vinis e toca-discos,inclusive fitas V.H.S,e o aparelho vídeo cassete.Os vinis estão voltando,e o toca-discos são importados dos Estados Unidos com novas tecnologias,motivo pelo qual muito satisfaz aos “Audiófilos mais exigentes””//.

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