Dando Nota

Rodrigo Alves

Repórteres no front de guerra

Colegas de trabalhos prestam homenagem a Santiago Andrade em Brasília - Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados

Homenagem a Santiago Andrade em Brasília – Foto: Luis Macedo/ Câmara dos Deputados

Publicado no Jornal de Piracicaba em 14 de fevereiro de 2014
Caderno Cultura – Página 2

Desde junho do ano passado, ao emergirem os movimentos populares no Brasil, tenho me questionado: os 20 centavos foram a única conquista dos protestos? As marchas cresceram. Nas ruas, os fantasiados black blocs surgiram para instaurar o medo e o caos. No silêncio de muitas ocasiões, taxei os manifestantes como rebeldes sem causa. E isso fica mais evidente com a morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade.

Santiago é a primeira fatalidade no meio jornalístico, mas o histórico de incidentes escancara uma triste realidade. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) informa que dos 114 casos de agressão desde o início dos protestos, 71 foram premeditados, ou seja, as vítimas foram atacadas por serem profissionais da imprensa. Dos 71 episódios, policiais foram responsáveis ​​por 56 e o restante partiu de manifestantes. A Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) apurou sete casos somente em 2014, sendo quatro agressões, duas ameaças e a morte do repórter da Bandeirantes.

Há tempos a situação fugiu do controle. É só recordar a bala de borracha atirada em Giuliana Vallone, da TV Folha. Poderia ser um rojão assassino, ainda que disparado por forças militares. Desde o episódio, embora houvesse a promessa dos órgãos de segurança do país em apurar “rigorosamente os fatos”, cresceram os atentados ao patrimônio público e privado, os abusos dos manifestantes e as ações violentas dirigidas a quem cumpre sua jornada de trabalho.

Intimidados pela ira da multidão, repórteres saíram às ruas com coletes. Ocultaram a identificação do local de trabalho, sem crachás e com microfones descaracterizados. Em junho, no auge dos protestos, Caco Barcellos foi expulso por manifestantes do largo da Batata com gritos de “Fora Globo” e “Central Globo de Mentiras”. Expressões como “fascistas” foram proferidas aos jornalistas da Veja. Poderiam ser 100 mortos ou mais, mascarados ou não, jornalistas, policiais, ativistas ou qualquer pedestre desavisado.

O extermínio de Tim Lopes no Complexo do Alemão, em junho de 2002, é o caso mais emblemático da violência contra um jornalista. Mas Tim era um repórter do crime e já recebia ameaças das facções, diferente dos profissionais que hoje cobrem as manifestações. Todos vão para o front de guerra, a mando de seus patrões, sem qualquer escolha ou proteção. Na própria Band, em 2011, já ouve uma baixa no quadro de funcionários: o repórter cinematográfico Gelson Domingos da Silva, durante tiroteio entre policiais militares e traficantes na zona oeste do Rio de Janeiro.

Mais que evidenciar o despreparo da polícia para lidar com tais situações, a morte de Santiago Andrade expõe a falta de estratégia de governos e a ausência de procedimentos dos meios de comunicação para assegurar o trabalho de jornalistas, câmeras e fotógrafos, quase sempre mal remunerados e expostos às jornadas estressantes de trabalho.

Entre tiros, rojões, depredação e truculência, os profissionais do jornalismo são alvos em potencial e iscas fáceis. Como trabalhadores, se submetem à guerra diária por notícias. O exercício da profissão é maior que a linha editorial da empresa e vai além dos péssimos salários. O verbo informar é nosso maior instinto. Estar nas ruas é a maior das satisfações. Essa adrenalina não pode ser tirada de nós, repórteres, por mascarados aloprados e suas demandas subjetivas.

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