Dando Nota

Rodrigo Alves

A agonia do rio Piracicaba também é nossa

Publicado no Jornal de Piracicaba em 7 de fevereiro de 2014
Caderno Cultura – Página 2

E o rio Piracicaba agoniza. Se por alguns anos presenciamos a força devastadora de suas águas e o drama da população ribeirinha com as enchentes, em 2014 uma triste visão salta aos nossos olhos. As altas temperaturas do Verão até estamparam a capa do jornal Folha de S. Paulo. Outros órgãos de imprensa acompanham atentos o período atípico de estiagem. A população lê e assiste curiosa, mas também demonstra sua tristeza.

Se você acompanha esta coluna, deve estar se indagando o motivo de estas linhas versarem sobre o rio Piracicaba. É que assim como os demais piracicabanos, compartilho da agonia. Parafraseando o amigo Júnior Kadeshi, forasteiro radicado nestas terras, não entendia o amor que todos os piracicabanos possuem pelo rio. Hoje, como filho adotivo, compartilho do sofrimento e tenho o mesmo sentimento. Se existe algo que aprendi em quase 15 anos na cidade é que o humor do piracicabano é medido pelos metros cúbicos de água no véu da Noiva da Colina.

No último domingo, 2, quase ao anoitecer, fui até as margens do rio para ver, de perto, a situação agravante. Logo no Museu da Água estavam famílias inteiras com reação de espanto: não havia o maravilhoso espetáculo das águas abundantes e sonoras, tão tradicional e sempre muito fotografado. Foi impossível não relembrar o fevereiro de 2010, com a maior vazão desde a década de 80. Na ocasião, as pessoas registraram a histórica cheia, em foto e vídeo, e publicaram no YouTube, no ainda cativo Orkut e no Facebook, que conquistava adeptos em terras brasileiras.

Desta vez, em tempos que as redes sociais estão em plena ascensão e os smartphones e tablets já se popularizaram, também mostramos de forma exacerbada nossa tristeza com a seca do rio. Os aficionados por fotografia – e muitos deles profissionais – atravessaram o rio a pé e compartilharam seus olhares no Facebook. Eu tinha noção da gravidade, mas ela foi ampliada quando visualizei uma seleção de fotos de Davi Negri e Fabrice Desmonts, meus colegas de trabalho na Câmara de Vereadores.

Mas não podemos ficar apenas sentados na cadeira, compartilhando fotos ou na simples lamentação. Precisamos nos mobilizar. Precisamos cobrar os órgãos gestores das águas. Ainda que a seca seja um problema nacional, o nosso rio é explorado desde a década de 70 pelo malfadado Sistema Cantareira para atender a demanda da Região Metropolitana de São Paulo. Em pleno governo militar no Brasil, a voz ativa foi a dos gigantes, que tiraram nossas águas puras para abastecer a capital. Não fosse a captação do rio Corumbataí, o colapso seria uma realidade.

Mesmo presenciando as pedras no rio, algumas pessoas adotam o discurso conformista. Alegam que o fenômeno acontece de tempos em tempos. Dizem que o rio Piracicaba, em breve, vai “jorrar água pra fora…”. Não consigo pensar desta forma ao descobrir que serão necessários cinco anos para repor as águas dos reservatórios. E creio que está mais que na hora de emergirem os movimentos sociais. Temos o passado como exemplo: na década de 90, quando a usina termelétrica Carioba foi anunciada, houve campanhas dos jornais, dos centros acadêmicos e das associações. A instalação foi barrada a partir da conquista popular.

O rio que é cartão-postal da cidade e identidade de um povo, hoje é cenário de morte em pleno período da piracema. É o rio que corta a cidade e também os corações de quem aqui nasceu ou a escolheu para viver. Mas pode ser também um rio apenas das lembranças, dos versos do poeta Brasílio Machado ou cantado por Craveiro e Cravinho, Sérgio Reis, Tião Carreiro e Pardinho e outros célebres sertanejos que reconheceram sua beleza. É um rio que quer pulsar com sua gente.

2 comentários em “A agonia do rio Piracicaba também é nossa

  1. Rodrigo Alves
    9 de fevereiro de 2014

    Junia, tudo bem? Houve, até o momento, iniciativas individuais. Neste domingo um grupo de 50 pessoas fez um arrastão (dos 500 que confirmaram presença no Facebook). Em 15 de fevereiro acontece um novo arrastão ecológico, desta vez organizado pela prefeitura. Até onde meu pouco conhecimento sobre meio ambiente permita, a grande questão está na retirada das águas do rio Piracicaba para abastecer o Sistema Cantareira (ou seja, a Grande SP).

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  2. juniaflavia
    7 de fevereiro de 2014

    Já existe alguma manisfestação em grupo?
    Qual órgão procurar?
    A prefeitura ? Governo do estado?
    Federal?
    Vc diz algo de teu trabalho na câmara dos vereadores, existe ali algo que se possa fazer?
    Tem alguma ONG ou organização que possa publicar ?
    Sou piracicabana, não moro mais na cidade e nos tempos de internet talvez tenha alguma sugestão de algo que possamos fazer.
    Muito obrigada
    Paz
    Junia

    Sent from my heartbeat

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Publicado às 7 de fevereiro de 2014 por em Curiosidades e marcado , , , , , , , .

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