Dando Nota

Rodrigo Alves

As muitas exclamações de Cacilda

Zé Celso Martinez Correa durante a encenação de Cacilda!!!! em Piracicaba

Zé Celso Martinez Correa durante a encenação de Cacilda!!!! em Piracicaba

Publicado em 13 de dezembro de 2013 no Jornal de Piracicaba

Encarar um espetáculo de teatro com cinco horas de duração é um ato heroico. Pelo menos em Piracicaba, onde poucos “corajosos” se dispuseram a apreciar a pré-estreia de Cacilda!!!! Fábrica de Cinema & Teatro, ocorrida em duas sessões no fim de semana no Sesc Piracicaba.

Diferente do que faz as companhias nas habituais pré-estreias, o Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona optou pelo caminho contrário. Em vez do tradicional eixo Rio-São Paulo, escolheu a unidade do Sesc em Santo André para as duas apresentações iniciais da montagem, em novembro, e na sequência veio a Piracicaba. Somente depois, o musical segue em cartaz pela capital. Tal fato, por si só, deveria ser encarado pelo público do interior como um raro privilégio.

No entanto, mais uma vez, diante de uma grande atração, surgiu a inevitável pergunta: onde estava o público? Seria um fim de semana com muitas opções na cidade? O calor intimidou? Ou, numa hipótese mais remota, a duração da peça foi colocada como empecilho maior, em detrimento à qualidade de um grupo com 55 anos de trajetória artística e à obra de um dos maiores diretores teatrais do país, José Celso Martinez Correa.

Diante da sobra dos lugares no ginásio de eventos do Sesc, adaptado especialmente para o espetáculo, surgiu o discurso inconformado de Zé Celso, ao final da apresentação: “Espero que nas próximas temporadas, este teatro esteja lotado. Eu não sei se é porque estamos em período de férias, mas as pessoas que ficaram, ficaram…”. Foi um agradecimento em tom de lamentação, de uma trupe que é bem-frequentada na capital, sempre com sessões cheias e sucesso de crítica.

Zé Celso também reforçou a necessidade de o público propagar – por meio do boca a boca – a qualidade do que foi vivenciado nas cinco horas de encenação. Sinto-me, neste momento, cumprindo parte desse papel, ao descrever em poucas linhas a profusão interpretativa do Uzyna Uzona em Cacilda!!!! (sim, com quatro exclamações, embora existam muitas outras na trama recém-apresentada).

Cacilda!!!! exalta a sacanagem e a amoralidade para narrar um período importante do teatro brasileiro – entre as décadas de 40 e 50 – com a profissionalização do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) no bairro da Bela Vista. Não é apenas um espetáculo para quem estuda ou acompanha teatro, mas para leigos que querem ter acesso a referencias históricas de episódios políticos do país, como a censura política sofrida por artistas.

De forma não linear, o Uzyna Uzona descortina o próprio reduto em que está inserido – o bairro Bixiga – e mostra o contexto em que atores, mulheres de vida fácil e gente de toda a sorte presenciaram o nascimento do TBC. Ao público, as indagações são vomitadas, em forma de canto: o teatro é também um mercado e não apenas arte, cuja profissionalização inclui um jogo constante de dinheiro e interesses, puxa-saquismo, troca de favores, orgias…

De forma ácida, o espetáculo aos poucos revela as várias faces de Cacilda Becker e a sua versatilidade em transitar da tragédia à farsa, do teatro moderno ao clássico. O histórico da atriz é entrelaçado com o nascimento da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, cuja filosofia foi a de imprimir a forma europeizada de encenação da sétima arte no Brasil. Uma indústria que veio para privilegiar os italianinhos, os norte-americanos e os grã-finos paulistanos.

Dividida em dois atos, a Cacilda com quatro exclamações é um espetáculo de sambas, choros e enredos carnavalescos. Faz a plateia se alucinar e interagir o tempo todo com a biografia delirante da atriz. Da minha parte, posso afirmar que seriam necessárias mais duas sessões para digerir tamanha epopeia teatral, e se pudesse novamente estaria pronto para as muitas exclamações contidas na obra.

Para quem não teve a oportunidade de assistir o musical na cidade, a Inês não é morta: a partir deste sábado, 14, o Uzyna Uzona inicia a temporada na capital, com apresentações em sua sede, no Bixiga. Mas atenção: estão programadas apenas cinco sessões.

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