Dando Nota

Rodrigo Alves

O silêncio que nos habita

silencio

Publicado no Jornal de Piracicaba em 22 de novembro de 2013

O barulho é ensurdecedor e invade o meu quarto. São 8h em ponto. Na residência em frente, britadeiras antecipam o despertar. O som é implacável e o corpo pede mais uma hora de repouso. Nos meus tímpanos estouram a mensagem: “acorde, o mundo está em pé!”

Ao levantar, a preguiça é grande. Abro a janela e presencio uma nova reforma na área central. Tento abafar o barulho com a TV, o esforço é vão. Quando a sinfonia dos operários devolverá a minha rotina?

A semana passa e aumentam as preces. A espera pelo sábado soa esperançosa aos ouvidos com a fantasiosa frase: “fique calmo, logo terá algumas horas a mais de paz”. Mero engano.

Sai a britadeira, entram os carros de propaganda. Lentamente eles percorrem as ruas centrais numa competição volumétrica. Ganha aquele que expelir mais decibéis. Conquistam novos clientes?

É domingo, mas acordar tarde é um sonho. O dia consagrado ao descanso na tradição cristã é o preferido para as caminhadas de todos os grupos. Com a aproximação da multidão para o coreto da praça, o sossego lhe boicota por mais um dia. Parece que a festa é dentro do seu apartamento.

Faço um desabafo nas redes sociais. Em poucos minutos, brota uma dezena de comentários. Moradores do Centro, que vivenciam situações parecidas, apresentam suas versões. Uma legião, refugiada nos bairros e em cidades menores, se manifesta. Todos estafados com o barulho.

Uma colega cita o “pagodão dominical”. A vizinha lembra o choro ininterrupto do yorkshire preso no apartamento 141. As histórias não param: é a furadeira que funciona depois das 22h, o alarme disparado na madrugada, os rachas de carros com funk pancadão, os gatos no cio que provocam insônia…

Tempos atrás, uma reportagem descrevia o incômodo de paulistanos com o canto do sabiá. Na calada da noite, o pássaro lhes tirava o sono e, de dia, provocava desconcentração no trabalho. Num primeiro momento, classifiquei como intolerância, agora sou solidário aos moradores.

Em tempos de culto ao barulho, os seres insistem em vomitar palavras de autoafirmação, falar alto, invadir a conversa dos outros, manter o celular ligado no teatro, acionar os alertas no computador… o ruído é uma extensão da nossa existência, precisamos ser notados de alguma forma.

Nos últimos meses, persigo o silêncio. Se antes ligava  a televisão durante a produção de um texto, hoje a mantenho intacta. Deixo o telefone no silencioso. A música, que servia como pano de fundo para embalar as leituras, é acionada no devido momento. O barulho ao meu redor, não posso abafar.

Ainda que caminhe na contramão, acredito no silêncio. Para alguns é ameaçador, representa a solidão. Amordaça e sufoca. Chaplin dizia que o som aniquila a grande beleza do silêncio e sou obrigado a concordar. O silêncio nos habita.

A inesperada reforma do imóvel ao lado forçou-me a refletir sobre o silêncio. Este substantivo masculino, derivado do latim, que também é sinônimo de quietude, moderação, falta de comunicação ou segredo. Pois é no silêncio que se contempla a espera, o mistério, o controle. Lembro de Arnaldo Antunes e sua canção homônima: “a primeira coisa que existiu”, mas que “ninguém ouviu”.

2 comentários em “O silêncio que nos habita

  1. Simone Zuffi
    22 de novembro de 2013

    Texto Encantador.E verdadeiro.

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  2. Andrea R. Martins Corrêa
    22 de novembro de 2013

    Parabéns pelo texto, Rodrigo. Compartilho do mesmo desejo e percepção.

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Publicado às 22 de novembro de 2013 por em Curiosidades e marcado , .

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