Dando Nota

Rodrigo Alves

Salão de Humor: instrumento vanguardista para as críticas sociais

Premio Charge - Goran Divac - Servia

Publicado no Jornal de Piracicaba em 25 de outubro de 2013

Quatro homens caminham lentamente. Carregam no ombro uma folha de jornal enrolada, que substitui um caixão de defunto. À frente, um indivíduo de aparência sisuda leva uma máquina de escrever e, ao final da fila, uma senhora com véu traz um ramalhete de flores. Trata-se do fim do jornal impresso, representado pelo traço do cartunista sérvio Goran Divac, um dos destaques no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

Encerrada no domingo, 20, a histórica edição de 40 anos do evento mais uma vez nos convidou à reflexão. Se no passado foi utilizado para denunciar as atrocidades da Ditadura, mantém-se na atualidade como instrumento vanguardista de crítica para temas sociais. É por isso que artistas de 64 países fazem questão de figurar com suas obras na mostra. Muitos deles ainda vivem sob a tirania e são adotados pela liberdade que somente Piracicaba lhes proporciona.

A charge de Goran Divac nos desperta para um assunto amplo. Traz à tona o debate sobre a sobrevivência dos meios tradicionais de comunicação, diante das inovações digitais. Há especialistas que exibem dados estatísticos para a extinção dos jornais e outros que são taxativos ao classificar como mera especulação. Diante da crise de conglomerados da mídia, Divac personificou o debate com seu cortejo fúnebre. Deixou-nos, no entanto, a discussão em aberto.

Percorrer o Engenho Central para apreciar as obras expostas é mais que um simples lazer de domingo ou um ato de apreciação artística. É repassar as notícias – nem sempre boas – que pautaram a mídia nos últimos tempos. É reconhecer as falhas humanas ainda enraizadas em instituições, governos e sociedade. É rir da desgraça alheia e ver nossos problemas representados de forma inteligente, engraçada e mordaz. É entender o pensar de cartunistas e ter acesso a um recorte peculiar sobre suas visões de mundo.

Divac também é autor de um cartum sobre o alcoolismo, mal que acomete povos de diferentes nações. Pelo desenho angariou a simpatia do júri de premiação, eleito vencedor do grande prêmio do Salão, o Troféu Zélio de Ouro. Mas a leitura dos cartunistas na edição de 40 anos foi além: houve sátiras aos recentes protestos com os lemas Vem pra rua e O gigante acordou, além de desenhos sobre o esquema de espionagem americano divulgado por Edward Snowden e a suposta formação de cartel no Metrô.

É preciso lembrar da boa fama que o Salão possui nas caricaturas. Estas foram declarações do próprio júri de seleção e dos membros da comissão de premiação. Entre seus integrantes estiveram Marlene Pohle e Carlos Brito, ambos vice-presidentes da Feco, a federação de cartunistas que é referência mundial em humor gráfico. A vinda deles reflete o reconhecimento que o Salão detém na esfera internacional.

Como inesgotável fonte de ideias, o Salão de Piracicaba só poderia sagrar-se como um dos mais importantes nas artes gráficas. Nasceu da rebeldia juvenil idealista de jornalistas e intelectuais da cidade e, como disse Zélio Alves Pinto, nele estão prestigiados “o humor exigente, inteligente, intelectual, qualificado, requintado, reflexivo e construtivo”. É por motivos como esses que, segundo Zélio, o Salão é capaz de peneirar o humor chulo, agressivo e inócuo, do humor qualificador e refinado.

Se os pincéis críticos dos cartunistas ajudaram a consolidar o Salão, houve o cuidado permanente de seus idealizadores – apoiados no início pela turma de O Pasquim. Somado a isso, nenhum prefeito ou secretário foram capazes de desativá-lo, independente de transições de governos municipais. Todos, a seu modo, entenderam a importância do Salão para a cultura. Na contramão do que aconteceu no Brasil e no mundo, o Salão de Piracicaba manteve-se vivo, enquanto presenciou-se a extinção de eventos similares.

Em especial nos últimos anos, o Salão deu longos passos por meio de uma gestão competente no Centro Nacional de Humor Gráfico, na figura do cartunista Eduardo Grosso, e da Secretaria da Ação Cultural, sob condução de Rosângela Camolese. Equipes que profissionalizaram a mostra principal, buscaram parcerias com instituições para a proliferação de exposições paralelas do acervo permanente e ofereceram cursos permanentes no decorrer do ano, capacitando os interessados na área.

O Salão de Humor é mais que uma mostra de arte. É uma instituição viva, perene e em constante transformação. Deve, portanto, ser valorizado pelos seus conterrâneos e abraçado por aqueles que adotaram Piracicaba como sua. Afinal, temos orgulho em dizer que estamos na capital do humor.

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Publicado às 25 de outubro de 2013 por em Curiosidades e marcado , , , .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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