Dando Nota

Rodrigo Alves

É proibido proibir

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 18 de outubro de 2013

Ilustração: Erasmo Spadotto

Passados 25 anos da declaração da Constituição Federal, artistas capitaneiam o debate sobre as biografias não autorizadas. À frente do grupo Procure Saber, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil mostram-se intimidados com a veia poética de escritores. Os bambas da MPB que no passado versaram em defesa do livre expressar, hoje oram pelo direito à inviolabilidade da vida privada.

Mesmo crendo que todos têm o direito à privacidade, também sou contra qualquer tipo de censura. É disso que devemos lembrar, diante de uma Comissão da Verdade recém-criada que apura os excessos da Ditadura Militar. O passado já foi escrito com receitas de bolo nos jornais. Faremos o mesmo com as biografias chapa-brancas, nas quais o intuito é deixar o personagem “bem na foto”? Se entre 1970 e 1988 foram mais de 140 livros nacionais censurados, quantos teremos em plena democracia?

Longe de ser um exímio entendedor da legislação brasileira, avalio como contundentes as críticas aos integrantes do Procure Saber. Utilizam-se do discurso de “liberdades democráticas”, mas olham somente para o próprio umbigo. Reclamam da difamação, mas reivindicam a obrigatoriedade de pagamento aos biografados, não contentes com a fortuna acumulada com os direitos autorais de suas obras musicais.

Mais que uma grande perda para os escritores, a proibição de biografias não autorizadas atinge todos que atuam com a escrita. Quem garante que daqui alguns anos o jornalista não terá que submeter seu texto ao entrevistado antes da publicação? Para quem acha exagero, Paula Lavigne, presidente do Procure Saber, fez a descarada solicitação a um repórter da Folha de S. Paulo semana passada. Esse pedido, um tanto constrangedor, já ouvi de vários entrevistados, em quase uma década de profissão.

Ao se mostrar contrário à alteração do Código Civil, o Procure Saber nada mais deseja que a preservação do comodismo. É por isso que Roberto Carlos encabeça o movimento. Em 2007, ele garantiu por meio de liminar a retirada das prateleiras da obra Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo César Araújo. Em 2002 tirou de circulação o próprio Acústico MTV, gravado um anos antes, sob a alegação de problemas contratuais com a Rede Globo.

Causa admiração e espanto a presença de Gil, Caetano e Chico no movimento. Todos com histórias de perseguição e músicas censuradas no período do AI-5. O caso de Gil é pior ainda: como ministro da Cultura no governo Lula, pregava o licenciamento colaborativo e aberto para obras autorais. Agora, deixou para trás a filosofia do Creative Commons para aderir ao Copyright e à bandeira do “todos os direitos reservados”.

A biografia de Caetano ganha uma grande mancha este ano. Depois de defender publicamente o movimento Black Bloc e voltar atrás com desculpas esfarrapadas, esqueceu o que vivenciou no 3º Festival Internacional da Canção, em 1968, ao apresentar a música “É proibido proibir”. Sob vaias, ovos, tomates e pedaços de madeira, proferiu um discurso inflamado, ouvido por poucos. “Vocês estão querendo policiar a música brasileira. Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês estão por fora!”

O Procure Saber não passa de um grupo mesquinho, que sofre de amnésia coletiva. No atual contexto, taxá-los de sensores é um caminho natural. Utilizar os versos de seus integrantes e os discursos do passado talvez ajude a refrescar suas memórias. Caetano, Gil, Chico e Milton querem o poder para si e desejam policiar o mercado editorial brasileiro. Tomates, ovos e vaias neles. Voltemos em 1968 para que aprendam uma grande lição em 2013: “Vocês estão por fora!”.

 

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