Dando Nota

Rodrigo Alves

A velha MTV deixará saudades

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No início eram apenas boatos, mas o fim da MTV, agora, é certo. Pelo menos nos moldes estabelecidos desde a década de 1990, com a saída do Grupo Abril do comando e a entrega da marca ao conglomerado Viacom. Nos últimos dias, a notícia revestiu de incerteza o público que ainda resta da emissora, que formou boa parte do repertório musical de toda uma geração, da qual faço parte.

No auge da adolescência, lá pelos 14 ou 16 anos, disse sem hesitar a um grupo de amigos: “a MTV sempre será meu canal favorito!”. Menos de dez anos depois, apaguei a frase da memória e a predileção ficou adormecida. Teria eu, já naquela altura, amadurecido cedo demais? Até pode ser, mas hoje concluo que a emissora perdeu a identidade e o seu maior patrimônio, o público.

Quando o canal foi lançado, em 1990, assisti a um ou dois programas na casa de um amigo mais velho, embora os carrinhos e o videogame fossem mais atrativos. Com a chegada da antena parabólica em casa, pouco tempo depois, fiz a festa com as vinhetas experimentais e sem nexo, com clipes de figurinhas carimbadas como Madonna e Michael Jackson e bandas como Oasis, Guns N’ Roses, Pink Floyd, Green Day e, claro, a cobertura sobre os dramas e escândalos dos popstars. Prato cheio para a vida, muitas vezes chata e sem sentido, da maioria dos jovens e adolescentes da época.

No início da década de 1990, quando os CDs eram peças colecionáveis, a MTV veio com as versões acústicas de bandas brasileiras. Tenho todos guardados, um tanto empoeirados, mas preservados por preciosismo e apreço à Legião Urbana, Capital Inicial, Titãs, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Rita Lee, O Rappa, Cássia Eller e por aí vai. Nesse período, eram frequentes os empréstimos entre amigos das fitas VHS, gravadas da emissora, com os shows desses e outros grupos.

A geração que viu (e ouviu) a MTV foi a mesma que curtiu Mamonas Assassinas, escolheu por telefone os clipes favoritos, chorou na frente da TV a morte de Renato Russo e juntou a turma para acompanhar os melhores momentos do histórico show dos Guns n’Roses em 1991 no Rock in Rio. No retorno de Axl Rose ao Brasil, dez anos depois e com a nova formação da banda, a MTV se fez presente de novo e exibiu o show.

Os laços também foram criados diante do estilo descontraídos de seus apresentadores, ou VJ’s. Primeiro o sexteto-fundador Zeca Camargo, Gastão, Astrid Fontenelle, Maria Paula, Luiz Thunderbird e Cuca Lazarotto. Depois os bem-humorados Cazé Peçanha, Penélope Nova, Marina Person e João Gordo. Não arrisco citar nomes recentes, pois ao passo que eles vieram, já havia me distanciado da emissora.

Alguns críticos atribuem a decadência da MTV à disponibilidade de clipes e shows na internet ou mesmo aos clipes no formato HD. Será mesmo que ela desandou por causa da internet? Com certeza tais fatores contribuíram, assim como a popularização da TV a cabo e os novos canais com propostas semelhantes, caso do VH1, Multishow e BIS.

Temos de convir que a detentora da marca também colocou a corda no pescoço ao focar investimentos em programas popularescos, incompatíveis com a essência da MTV.

Os humorísticos vieram, Marcos Mion fez escola, e o canal perseguiu a ideia, até chegar aos dias atuais. Decisões acertadas nesse percurso podem ser citadas: Hermes & Renato, Paulo Bonfá e Marco Bianchi com o RockGol e, o último dos moicanos, Furo MTV, composto por Dani Calabresa e Bento Oliveira. Mas da atual safra não há grandes nomes, exceto o de Tatá Werneck e o questionável Marcelo Adnet. Sem contar o período em que o destaque nos programas restringia-se ao rock colorido de Restart, Cine, Fiuk e Replace.

À população que passou dos 30 anos, resta como opção lamentar o fim da MTV, uma janela das novas tendências e comportamentos. Mais que exibir clipes, ela rompeu padrões, exportou talentos, teve seu formato copiado e se apresentou como a alternativa ao tradicionalismo da TV aberta. Uma nova MTV nascerá, mas nenhuma outra ocupará o seu lugar. A “velha” (e muito boa) MTV Brasil e o seu TOP 10 deixarão saudades.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 6 de setembro de 2013

Ilustração: Erasmo Spadotto

2 comentários em “A velha MTV deixará saudades

  1. Rodrigo Alves
    19 de setembro de 2013

    Oi Fábio! Eu lembro do Erotica e gostava bastante dele também! Este fim de semana assisti o Mion nos Piores Clipes, ri bastante! Ah: e também tinha o Fica Comigo, versão Cicarelli e Fernanda Lima! Ouvi dizer que vai sair um livro sobre os bastidores da MTV. Vamos esperar! Bjos, saudades!!!

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  2. fi80s
    19 de setembro de 2013

    tambem sentirei saudades da “velha” MTV…

    ela fez parte da minha faculdade. em ribeirao soh pegava em UHF, uma dificulade conseguir acertar o sinal!!!! adorava assistir aos programas que eram super diferentes daqueles dos canais “convencionais”… e as vinhetas! Nossa, ainda tenho na mente algumas muito bizarras!

    meus programas favoritos eram o MTV Al dente, com seus clipes sensuais e top models como apresentadoras (coisa que so a MTV poderia Inventar) e o Erotica MTV, que tratava de sexualidade e juventude de maneira aberta e sem babaquices…

    confesso que faz muito tempo que nao assistia a MTV. E fiquei muito triste em saber do que aconteceu com a qualidade e decencia de seus programas nos ultimos suspiros…

    deixara saudades, com certeza…

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Publicado às 6 de setembro de 2013 por em Curiosidades e marcado , , , , , , , .

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