Dando Nota

Rodrigo Alves

Chamem a telefonista!

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Publicado no Jornal de Piracicaba em 30 de agosto de 2013

Arte: Erasmo Spadotto

Ganhamos um dígito a mais nos celulares desde o domingo, 25. A partir de setembro, o nove é definitivo em todas as chamadas na telefonia móvel do interior. Até lá, temos como missão renovar os cartões de visita e comunicar os contatos de outros estados. É só um esforço para quem lidava, no passado, com apenas três dígitos para realizar uma ligação.

Aos oito anos de idade, o telefone da minha casa era 275. Simples assim! O número do vizinho: 257, o inverso do meu. O da casa dos meus tios, 221, talvez porque adquiriu o serviço meses antes. E desta forma decorávamos todos os telefones da cidade, talvez umas 300 combinações, no máximo.

Tão logo a inclusão do nono dígito nos celulares foi anunciada, bateu certa nostalgia dos tempos “remotos”, com a tecnologia escassa, quando a palavra discou fazia parte do vocabulário das telecomunicações. As residências ostentavam o telefone como luxo. O aparelho, em formato de disco, hoje causaria espanto nos adolescentes.

Recordo-me que o preço da linha era tão caro, que algumas pessoas compravam cinco ou seis, para depois alugarem. Você corria o dedo na lista telefônica e via o mesmo nome sucessivas vezes, diferenciado pelo número e endereço. Quem adquiria o telefone fixo, recebia ações da Telebrás e, por isso, usava como fonte de renda.

As ligações para números da mesma cidade eram rápidas, mas interrompidas com frequência. Há quem diga que era malandragem das empresas, já naquela época, para aumentar a cobrança por pulso. Falar ao telefone era, definitivamente, “coisa de adulto”. Criança, se quisesse, só batia papo com os amigos pessoalmente.

Processo complicado era o interurbano. A telefonista, figura mítica, essencial em todo o processo, atendia do outro lado da linha: “–Central telefônica, boa tarde! Em que posso ajudar?”, dizia a voz feminina. Sim, uma mulher! Creio que o ofício, naquele tempo, fosse inadmissível aos seres do sexo oposto.

“–Por favor, faça uma ligação para fulano de tal, da cidade x. O número é…”. Antes de completar o ofício, uma nova pergunta: “–De qual telefone o senhor está falando?”. Entre um diálogo e outro, espera mínima de três minutos. Tempos depois, o contato com outras pessoas se concretizava.

Se tivesse um telefone residencial, precisava compartilhá-lo com a vizinhança inteira. Você corria na casa da frente para informar que o parente distante retornaria em cinco minutos. Isso quando não precisava percorrer duas ou três quadras só para o recado de urgência.

Ao lado do aparelho havia o caderninho. Se alguém pedisse o telefone emprestado, anotava-se o número discado, data e horário do telefonema. No final do mês, você enviava a cobrança ao vizinho, incluindo 25% de ICMS ao valor da ligação. Minha mãe era craque nessa matemática.

Nessa de emprestar o telefone, conheci muitas história dos vizinhos. Eram frequentes os comentários de meus pais após a saída de cada um. Tinha a impressão que as pessoas escolhiam datas certas para visitar minha casa. A cada dia aparecia uma figura diferente.

Havia o inconveniente, que só expunha problemas. O fila-bóia, que surgia na hora do jantar (e jantava!). O cara de pau, que pendurava a conta por meses. O que chegava com esposa e cinco filhos (e colocava todos ao telefone). Tinha até a solteirona, que vinha no fim de tarde e permanecia até altas horas. Lembro dos meus pais pescando na sala, caindo de sono, e ela vibrando com a novela. Ela também não tinha TV em casa. “–Essa aí… onde senta, o capim seca!”, dizia minha mãe.

Pode não parecer, mas presenciei drásticas mudanças no aspecto comunicacional nesse universo das telecomunicações. Sou apenas um trintão recém-ingressado na fase balzaquiana, que na certa, aos 50 anos, irei nutrir nostalgia do nono dígito. Quando essa idade chegar, precisarei dum esforço danado ao ligar para 15 dígitos, aos gritos clamando: “–Chamem a telefonista!”

2 comentários em “Chamem a telefonista!

  1. Rodrigo Alves
    20 de setembro de 2013

    Acredite Fábio, os anos passaram e minha cidade continua pequena, só os dígitos de telefone que aumentaram (e a telefonista sumiu…)! Adorei sua visita aqui no blog e os comentários também!!! Bjos!!!

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  2. fi80s
    19 de setembro de 2013

    Entao Ro, acho muito legal pensar que houve um tempo em que pessoas dividiam linha telefonica!!

    bom, o telefone do casa dos meus pais tinha 6 digitos na decada de 80 (dos quais me lembro ate hoje); hauahauahua devo confessar que sua cidade devia ser bem pequena kkkk: 3 digitos! inimaginavel!

    hoje em dia linha telefonica eh como guardanapo de papel: usa-se e joga fora… tb compartilho momentos de nostalgia…

    ainda mantenho linha domestica da Telefonica (pra poder usar o Speedy, do qual pessoalmente nao tenho queixas), sob criticas de amigos, que repetem que “isso nao existe mais”

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Publicado às 30 de agosto de 2013 por em Curiosidades e marcado , , , , , .

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