Dando Nota

Rodrigo Alves

O Guardião da Bíblia

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Publicado na página 2 do caderno Cultura do Jornal de Piracicaba em 5 de julho de 2013, com ilustração de Erasmo Spadotto

Dez anos passaram-se desde a inauguração do Centro Cultural Martha Watts, espaço entregue pelo Instituto Educacional Piracicabano (IEP) em 27 de junho de 2003. À época, como estudante de jornalismo, atuei como bolsista nos laboratórios e no museu do imponente edifício da rua Boa Morte, em plena área central da cidade. Muitas são as boas recordações desta que foi a minha primeira experiência com as artes em Piracicaba e, diante de tal ocasião, a memória clama. Lembranças inusitadas surgem a cada instante.

Com todos os espaços do Centro Cultural recuperados, havia a preocupação em acolher os visitantes na abertura do museu. Logo, os estudantes bolsistas foram escalados como monitores, para fornecer informações sobre os ambientes, a história do Colégio Piracicabano e mais detalhes da história da missionária metodista Martha Watts, responsável por conceber a instituição, que hoje abriga também a Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba).

Como em toda inauguração, os imprevistos surgiram de última hora, alguns solucionados para a data inaugural e outros com certa dose de improviso. Um deles foi a falta de um vidro de proteção para uma bíblia, valiosíssima e rara, trazida por Martha Watts dos Estados Unidos quando ela retornou de uma de suas viagens.

Não havia como opção deixar a bíblia guardada, escondida do público, porque a imprensa, ao produzir as matérias jornalísticas, deu atenção especial ao raro objeto. Sua restauração foi pensada especialmente para a ocasião. Os diretores do espaço não tiveram outra alternativa senão escalar um estudante bolsista para atuar como ’guardião’. E lá estava eu, uniformizado, no meu devido posto, com poucos meses de atuação, escolhido ao acaso.

A missão parecia fácil, encarada com tranquilidade, mas algumas horas depois tornou-se desafiante. Era, na verdade, um árduo ofício, também não previsto pelos responsáveis pelo Centro Cultural na inauguração, o trio Hélio Dias da Silva, Martha da Luz Rivero e Zuleica Mesquita, que tão bem conduziram todos os festejos e preparativos no museu na data, ao lado do então diretor-geral do Instituto Educacional Piracicabano, Almir de Souza Maia.

Aguardada por muitos, a bíblia restaurada despertou os mais distintos sentimentos entre os visitantes. Alguns tentaram beijá-la, outros folheá-la, e ainda aqueles, mais apaixonados, que compareceram com a vontade de abraçar o objeto e levá-lo embora para casa. O guardião da bíblia, no entanto, estava pronto para inibir qualquer gesto mais brusco de aproximação da valiosa peça.

Posicionada no interior de um ’túnel do tempo’ negro, em formato circular, a bíblia de Martha Watts estava ao centro do primeiro andar do edifício, revestida ainda por um feixe de luz roxeado e uma atmosfera contemplativa. Havia até uma trilha sonora aos que adentravam no espaço, remetendo à passagem dos antigos bondes em Piracicaba.

Aos paraquedistas de plantão, visitantes ocasionais, o espaço proporcionava um grande susto, pois diante da contemplação se depararam com o vulto do guardião, quase um fantasma de uniforme branco! Aos mais fanáticos, que propositalmente creram na leitura dos versos bíblicos em inglês, a única alternativa era a retirada, quase à força, pelo garoto de 20 anos, 1,63m de altura e franzino, quase incapaz de superar granalhões, com seus 60 quilos de massa corpórea!

No Centro Cultural Martha Watts vivi (e posso dizer sem pestanejar) uma das melhores fazes da minha vida em Piracicaba, rodeado por colegas de faculdade que partilharam da mesma experiência e por três exímios coordenadores (Hélio, Martha e Zuleica), que foram guias, pais e mestres para uma vida toda. Permaneci no espaço pouco mais de seis meses, mas é impossível passar em frente ao edifício diariamente, dez anos depois, e não lembrar das inusitadas histórias, como esta que marcou a divertida (e tensa) inauguração.

2 comentários em “O Guardião da Bíblia

  1. Rodrigo Alves
    5 de julho de 2013

    Olá Derli, fico feliz com a sua leitura e mais ainda com o retorno. Tenho a sorte, hoje, de praticamente ter o Centro Cultural na sacada do meu apartamento, talvez uma forma de as memórias não escaparem mesmo. Grande abraço!

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  2. Derli Barroso
    5 de julho de 2013

    Oi Rodrigo,
    Acabei de ler seu blog sobre sua acao como “Guardiao da Biblia”. Adorei!
    Deu pra perceber que voce cresceu acima de sua “massa corporea”, mas continuando guardiao de uma memoria muito importante.

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