Dando Nota

Rodrigo Alves

Éramos tão jovens

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Publicado no caderno Cultura do Jornal de Piracicaba em 10 de maio de 2013

Ícone na década de 80, Renato Russo ganhou a simpatia de uma geração inteira por meio de canções “cabeças” que expressavam os anseios da juventude da época. Mas sua história caiu no esquecimento, o Brasil cantado nas letras não existe mais e a moçada rebelde virou chefe de família. Até que surge a cinebiografia Somos Tão Jovens, em cartaz nos cinemas (incluindo Piracicaba).

O filme dirigido por Antônio Carlos da Fontoura atinge com facilidade os fãs da Legião Urbana e desperta a nostalgia nos minutos iniciais. No decorrer da narrativa, a plateia se mostra empolgada com as várias músicas de Renato, um entusiasmo que faz até alguns cantarem baixinho as letras de cor.

Um dos pontos fortes é a atuação de Thiago Mendonça, escalado para o papel principal. O ator, que também interpretou o cantor Luciano no filme Dois Filhos de Francisco, consegue reproduzir os trejeitos de Renato, sua forma de caminhar, o timbre vocal e a musicalidade vibrante do cantor e compositor. Nesse contexto, a contribuição também vem dos atores que vivem os colegas de banda e das canções tocadas de fato pelo elenco, que transmitem mais naturalidade às cenas.

O roteiro não se prende a explicações sobre o contexto político da época, mas é algo que fica evidente nas entrelinhas do filme. É a partir do descontentamento do elenco juvenil com o marasmo na vida em Brasília que a trama começa a envolver o público, com as brincadeiras adolescentes, a rebeldia típica da idade e a vontade de mudança.

Em alguns momentos, Somos Tão Jovens esbarra na monotonia e o enredo se assemelha a capítulos de novelas teens, no melhor do estilo Malhação. Perde-se muito tempo com os flertes de Renato com “meninos e meninas”, com a necessidade de mostrar um garoto extremamente intelectual, egocêntrico e teimoso. É estranho ver a atuação dos pais em segundo plano, sem grandes conflitos diante da rebeldia do garoto problemático.

Outro ponto negativo está no tratamento dado ao punk rock e ao modo como o estilo gringo influenciou os grupos musicais da época. A opção foi mostrar o contexto musical por meio das bandas que nasceram em paralelo ao Aborto Elétrico e a Legião Urbana e mencionar outras que beberam de fontes distintas, como Capital Inicial e Paralamas do Sucesso, representadas na obra por seus líderes Dinho Ouro Preto e Herbert Vianna.

Sem colocar no pedestal o protagonista, como já aconteceu outras vezes com as cinebiografias (Cazuza é o maior exemplo), Somos Tão Jovens transmite a sensação de um filme leve, divertido e emocionante. Celebra a juventude e traz de volta uma história relevante da cultura nacional, o que evidencia o mérito do trabalho.

Até pelo forte apelo midiático, boa fatia da bilheteria também é de adolescentes, o que atribui ao filme a função de formar uma nova legião de fãs. Seria interessante saber que além de Naldo, Michel Teló e Luan Santana, eles se interessaram pelas canções de Renato, anos-luz mais politizadas e questionadoras do que a atual safra de produtos da indústria fonográfica.

Aos antigos (ou melhor, aos que outrora puderam curtir Renato, o Aborto e a Legião), Somos Tão Jovens devora as entranhas a sensação de que a canção-título da obra só pode ser cantada hoje com o verbo no passado. Enfim, éramos tão jovens.

Um comentário em “Éramos tão jovens

  1. Jean Martins
    10 de maio de 2013

    Fala Rodrigo, tudo bem?
    Esta é a primeira vez que acesso seu blog (confesso, sou um péssimo colega de profissão..rs) e gostei do conteúdo. Não manjo muito de cultura, mas nos últimos meses venho me interessando pelo assunto.
    Ainda não assisti o filme, mas com o seu texto e de outros amigos, acredito que poderei ter um olhar mais crítico quando for vê-lo.

    Um grande abraço,

    Jean Martins

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Publicado às 10 de maio de 2013 por em Cinema e marcado , , , , , , .

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