Dando Nota

Rodrigo Alves

Letras da liberdade

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Publicado na página 2 do Caderno Cultura do Jornal de Piracicaba em 19 de abril de 2013

“Treme e tem terror a língua de pronunciar o que os olhos viram; mas sendo o caso tão feio, tão horrendo, tão atroz e, tão sacrilégio que não se pode dizer, e tão público e tão notório que não se deve calar.”

Os versos, escritos no século 17, pertencem ao padre Antônio Vieira e ilustram o livro Pavilhão 9, de Hosmany Ramos, que narra a crueldade das autoridades policiais no massacre aos 111 detentos no Carandiru, com ares de impunidade duas décadas depois.

Júri e juízes deveriam recorrer a uma bibliografia obrigatória antes de proferirem a sentença. O livro Estação Carandiru, lançado em 1999 pelo médico-escritor Drauzio Varella, constaria desta lista. É escrito por alguém que conheceu a realidade de perto e que, adaptada para o cinema, escancarou ao grande público a densa realidade do sistema prisional.

Mas além de Drauzio, há uma vasta produção sobre o 2 de outubro de 1992. São os gritos dos mais fracos, dos oprimidos pelo sistema que renasceram do inferno. Entre as obras, recomendo Letras da Liberdade, da WB Editores, com depoimentos de vários prisioneiros; Diário de um Detento, de Jocenir; Vidas no Carandiru, de Humberto Rodrigues; e Pavilhão 9 — O Massacre do Carandiru, escrito por Elói Pietá e Justino Pereira.

Longe de se tornarem best-sellers, tais livros provocam arrepios, indigestão e descrença. Ao ler cada um deles, reafirmei a minha posição de que, infelizmente, vivemos num cenário cada vez mais longe de encontrar um formato para a ressocialização dos marginalizados.

O julgamento do Carandiru ainda assusta. Como pode um ex-governador sustentar a tese que a ação foi “necessária” e “legítima”? Como pode a justiça levar 20 anos para apurar as circunstâncias dos crimes? Terão os 74 PMs a mesma sentença que o Coronel Ubiratan Guimarães, condenado e absolvido?

Ainda que o desfecho da ação judicial esteja próximo, é fácil prever que a culpa cairá nos executores do massacre, sendo muito otimista. Permanecerão ilesos os ocupantes das altas posições hierárquicas, os verdadeiros mandantes da invasão no Pavilhão 9.

Com os 111 corpos, deveriam as autoridades brasileiras enterrarem também o artigo 5o da Constituição Federal, afinal, o Estado está longe de assegurar aos presos o respeito à integridade física e moral.

Vinte anos após a execução dos “marginais”, a sociedade não sairá às ruas para protestar, não confeccionará cartazes, não colocará nariz de palhaço, não pintará a cara. No máximo, esbravejará nas redes sociais.

É mais fácil deixar os presos nas masmorras, em verdadeiras máquinas de tortura, nos pequenos Carandirus espalhados pelos vários Brasis, nas mãos de outros Ubiratans.

Para o episódio Carandiru, não houve policiais mortos (nenhum dos 330 presentes), não foi instituída uma Comissão da Verdade, não há discurso de repúdio na Comissão dos Direitos Humanos. Houve apenas uma CPI na esfera do parlamento estadual, inconclusa, arquivada e esqueci- da com o tempo.

Bandido bom é bandido morto e a cadeia apaga o que o sistema não quis, como bem escreveram Mano Brown e Jocenir em canção.

O Carandiru se transformou em pó, em seu lugar há um complexo cultural e recreativo. Mas a implosão do prédio não é capaz de apagar da história o sangue que desceu em cascata pelas escadas da casa de detenção.

Nem a impunidade irá apagar as letras de liberdade, que clamam nos livros escritos pelos sobreviventes.

3 comentários em “Letras da liberdade

  1. Carlos Damacena
    19 de abril de 2013

    Eu vi as fotos tiradas depois da invasão, são fotos extremamente chocantes, de causar náuseas nos mais fracos. Foi um verdadeiro massacre.

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  2. Rodrigo Alves
    19 de abril de 2013

    Pois é, Fábio. Visitei o Carandiru uma vez, logo que desocuparam o presídio, e fiquei chocado com o que vi, mesmo com o prédio desocupado. Nunca presenciei algo semelhante, não consigo imaginar como tantas pessoas viveram num espaço como aquele.

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  3. Fábio Mendes
    19 de abril de 2013

    No alvo o texto, Rodrigo. Está mais do que claro, que a culpa recairá aos executores. Quantos aos verdadeiros assassinos, os mandantes protegidos pelo Estado, é apenas um transtorno ter que sair de casa para depor nos tribunais. Trata-se de uma “violência legítima”.

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