Dando Nota

Rodrigo Alves

Aos trinta…

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Segunda-feira típica. Acordar cedo e cumprir a rotina matinal antes do batente. Banho, café da manhã, telejornal e arrumar a bolsa. No espelho, a barba se mostra um tanto crescida. Cultivá-la mais alguns dias seria a solução para quem pulou da cama quase atrasado, não fosse um pequeno detalhe, uma denúncia perfeita, em alto e bom som: seja bem-vindo aos 30! Era o primeiro fio branco de barba despontando no rosto.

Completei 30 anos aos 28 dias de fevereiro. O fio branco quis aparecer primeiro. Veio discreto, talvez imperceptível para outras pessoas. Forçou-me a uma rotina mais frequente com a lâmina e a espuma de barbear, mesmo não as considerando tão amigas.

Antes dos 30, ouvia dos amigos mais velhos que a idade é implacável. Observava com a atenção de quem nunca ligou muito para o assunto. Esnobava os mais velhos, fazia brincadeiras sobre a idade. E, agora, aqui estou, estreando e celebrando a nova fase com pés de galinha e linhas de expressão cada vez mais aparentes.

Fazer 30 é um convite à reflexão forçada. Por mais que não queira, você se pega pensando no percurso de três décadas de vida. Não é um aniversário qualquer, como 20. É tão incomum como os aguardados 18 e 21. Idades do sair das fraudas de forma definitiva e da almejada independência.

Aos 30 você já passou pelo primário, faculdade, pós-graduação e, mesmo com a profissão escolhida, a pressão para o aperfeiçoamento não te abandona.

Aos 30 já se teve a primeira mesa de trabalho, o primeiro cargo de chefia, a primeira puxada de tapete e as decepções amorosas. As lágrimas foram derramadas com as partidas de amigos e familiares.

Aos 30 as dores nas costas são frequentes ao acordar. As intermináveis baladas, embora tentadoras, foram trocadas por programas mais intimistas. Vez ou outra algum estreante na noitada te olha com cara de tiozinho. Bebe-se menos cerveja com medo dos pneus crescerem ainda mais, e com o paladar mais apurado, em nome da saúde, degusta-se um bom vinho.

Aos 30 já se viveu e curtiu Cazuza, Legião Urbana e Cássia Eller no vinil, fita K-7, CD e MP3. Presenciou-se uma fase da TV em preto e branco com direito a Xuxa, Chaves e Chapolin, Sítio do Picapau Amarelo, Fofão e Palhaço Bozo como babás eletrônicas.

Aos 30 deu tempo de conhecer orelhão de fichas, celular tijolão, prova de escola rodada no mimeógrafo, computador com disquete de 3,5 polegadas, internet discada e armazenamento de arquivos digitais em zip drive.

Quem hoje tem 30 ouviu os avós elogiarem ou criticarem Getúlio Vargas e os pais relatarem histórias tirânicas dos generais em seus governos. Comprou bala de fita, pé-de-moleque, dadinho e cigarrinhos de chocolate com Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo e URV. Viveu a infância com o bloqueio das contas de poupanças e com refrigerante apenas aos domingos.

Quem hoje tem 30 queria ser adulto para estar entre os caras pintadas nos atos pelo impeachment, mas tinha medo dos 17 anos, porque diziam que o mundo iria acabar em 2000.

Aos 30 você sabe que nada na vida é definitivo. Está mais tolerante, com menos neuras e reconhece quando vale a pena insistir, desistir ou simplesmente dizer não.

Aos 30 a inquietação ainda faz parte o seu dia a dia, ainda há disposição para aventuras e ainda se crê, mesmo que utopicamente, que nunca é tarde para se reinventar… pelo menos até a chegada dos 40.

Publicado no Jornal de Piracicaba em 1o de março de 2013

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Publicado às 1 de março de 2013 por em Curiosidades, Piracicaba e marcado , , , , , .

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#piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar! Eu pagando de tímido e sendo flagrado no Leblon Janelas do Tempo, exposição aberta hoje na Acipi, promovida pela Câmara de Vereadores de Piracicaba, para comemorar os 250 anos da cidade. #piracicaba250anos Como é bom ser criança! Lorenzo empolgado com a coleção de minions! Aquecendo com a #MinhaOSP
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