Dando Nota

Rodrigo Alves

Quando os sinos não soam

A polêmica entre o Convento das Carmelitas de Piracicaba e a vizinhança, tão alardeada na imprensa esta semana, não é nova. Ano passado lembro ter feito comentário a respeito no Dando Nota, em janeiro de 2010.

A diferença é que desta vez o assunto chegou um pouco mais longe. Além dos “tribunais”, foi parar até na Folha de S. Paulo (link para a reportagem aqui).

Em janeiro era apenas uma “recomendação da Cúria Diocesana” que os sinos deixassem de soar entre 5h e 6h. Agora foi uma decisão judicial. O motivo, no entanto, é o mesmo: vizinhos incomodados com o barulho e que recorrem à chamada “lei do silêncio” para calar uma tradição. O que era para simbolizar a paz se transforma em discórdia. Paradoxo do mundo contemporâneo.

Aproveitando o assunto – e a polêmica – republico um texto de minha autoria, de 17 de janeiro de 2010.

Quando os sinos não soam

Na edição do JP de sábado (16/01/2010), uma matéria chamou a minha atenção. O título era o seguinte: Sino deixa saudades no Jardim das Carmelitas.

O texto – com a assinatura de Ronaldo Victória — comentava da “proibição” há seis meses do soar dos sinos pelo convento das Carmelitas, às 5h e às 6h, horários em que acontecem missas no local.

Segundo as madres ouvidas pela reportagem, esta foi uma recomendação da Cúria Diocesana por causa de um abaixo-assinado feito por moradores, que reclamavam do barulho dos sinos. Em outros horários o sino ainda toca: às 10h45, 11h, 12, 14, 16h45 e 17h.

Sou de uma pequena cidade do interior mineiro e fiquei sensibilizado ao ler o texto de Ronaldo. Passei a minha infância ouvindo os sinos anunciarem as missas. E ele serve também para anunciar uma morte. Além disso, o auto falante da igreja é usado para anunciar documentos perdidos, avisos fúnebres e da prefeitura, entre outras coisas. Temos o sino, o canto da Ave Maria às seis horas, os avisos pelo auto falante, as badaladas do relógio a cada hora…

Quando vim morar em Piracicaba, uma coincidência fez que o meu apartamento fosse bem próximo da Catedral de Santo Antônio, onde ainda existe as badaladas do relógio a cada meia hora. O sino para as missas também não soa mais, no entanto, há pouco tempo ainda era usado. Não sei por qual motivo o deixaram de lado.

Na reportagem de Ronaldo, alguns moradores manifestaram sentimento nostálgico em relação ao soar dos sinos nestes dois horários. E declararam que não chegava a incomodar, mas que alguns “recentes” habitantes do bairro das Carmelitas venceram com o abaixo-assinado.

Ronaldo aborda o clima tranquilo do bairro, o bom relacionamento entre os vizinhos, a segurança do local. Características que até fazem que aquele local nem parecer um bairro da área central de Piracicaba, uma cidade com mais de 400 mil habitantes.

Mas parece que o soar dos sinos incomoda algumas pessoas. E eu fico perguntando: como pode algo tão belo fazer mal a alguém? Quem seriam estas pessoas? Por que não utilizaram seu poder de mobilização para fazer o bem? Estas pessoas não estão contentes com o privilégio em viver num bairro calmo? Então o que ainda fazem ali?

Sinceramente, não consegui encontrar resposta para estas perguntas.

Será que a vida é tão amarga que sequer conseguimos mais entender a beleza do soar dos sinos?

5 comentários em “Quando os sinos não soam

  1. Luciana
    26 de abril de 2011

    Não sou moradora da cidade mas acho justa a decisão da justiça .No Brasil o culto de qualquer religião é livre agora imagine se todas religiões decidirem bater tambor,cantar e gritar 10 vezes por dia nas ruas apartir das 5 da manhã,cultuando seus deuses .O que é para um é para todos .Pratiquem a religião em silêncio,sem atrapalhar o sossego dos outros,para que bater sino ,gritar e demostrar públicamente sua fé ,certo estava Friedrich Nietzsche quando disse : Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.

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  2. Rodrigo Alves
    23 de abril de 2011

    Realmente Ana Marly. Sou adepto do ditado, embora simplista: “quem esta como sono dorme”. Esse cidadão deve ter nascido revoltado! Ainda bem que seu amigo não eh vizinho dele, senão iria fazer coro…

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  3. Ana Marly de Oliveira Jacobino
    23 de abril de 2011

    Ops! Não seio onde errei: Para você Marcio e todos os seus leitores:
    “A Semana Santa está nas nossas raízes desde a colonização e marca a história de cada um, com a vida e a morte de umhomem há mais de dois milênios! Seu nome: “Cristo”!” Feliz Páscoa ao dandonota.Desta CaipiracicabAna Marly de Oliveira Jacobino

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  4. Ana Marly de Oliveira Jacobino
    23 de abril de 2011

    Para você Rodrigo e todos os seus leitores:
    “A Semana Santa está nas nossas raízes desde a colonização e marca a história de cada um, com a vida e a morte de umhomem há mais de dois milênios! Seu nome: “Cristo”!” Feliz Páscoa ao Educativa nas Letras.Desta CaipiracicabAna Marly de Oliveira Jacobino

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  5. Ana Marly de Oliveira Jacobino
    21 de abril de 2011

    E olhando a sua foto com o sorriso escancarado me bateu uma saudade do meu querido afilhado. Espero que você esteja bem e muito feliz. Manifestei o meu apoio na época sobre o silenciar do sino, com indignação e até escrevendo sobre a situação paradoxal que vivem os cidadãos , veja, também amo os animais, mas, durante o dia todo ouvimos os cães ladrarem e a noite dormimos pelo cansaço, pois os latidos e os miados das dezenas de cachorros e gatos, que vivem nos vizinhos nos deixam de cabelos em pé. Conto sempre a história real sobre: um brutamontes casado com uma grande amiga que morava na rota final dos aviões de um grande aeroporto, veja bem os avióes passavam tão baixo, que eu brincava dizendo ver o rosto do piloto (o trem de aterrizagem quase encostava no telhado do prédio, o qual o infeliz residia), pois bem vez ou outra, ele vinha para Piracicaba ficar na sua chacara e uma manhá ele saiu com essa: “Não dormi direito, pois um fdp. de um sabía veio cantar na árvore perto da minha janela! Da próxima vez vou lhe dar uma sapatada!” Então, fico aqui pensando; como pode um cidadão dormir com essa barulhada toda e não dormir com o repicar do sino. Rodrigo, durma com um barulho destes!Obrigada. Abraços desta CaipiracicabANA Marly de Oliviera Jacobino

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Informação

Publicado em 21 de abril de 2011 por em Curiosidades.

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