Dando Nota

Rodrigo Alves

Trote na Esalq. É assim mesmo?

trote

Na semana passada (01/03/2010) assisti a esta reportagem no Jornal Hoje, na Rede Globo, com o título “Universitários passam por trotes divertidos em Piracicaba“. (Clique aqui para assistir ao vídeo).

A matéria mostra um lado divertido do polêmico trote, que é a questão do apelido, o tradicional chapéu e a integração entre calouros e veteranos. Mas existem outras correntes que atestam: o trote na Esalq pode ser violento, como mostra o gráfico acima, extraído do livro publicado por Oriowaldo Queda e Antonio Ribeiro de Almeida Júnior.

Abaixo está uma reportagem de minha autoria para o Jornal de Piracicaba, publicada no caderno Tribos em 15 de fevereiro de 2009.

TROTE: TRADIÇÃO POLÊMICA

As universidades brasileiras recebem milhares de novos alunos nos próximos dias. O início das aulas anuncia a chegada de um ritual que, para alguns é considerado diversão e para outros é sinônimo de pavor. É o conhecido trote, palavra que segundo o dicionário Houaiss significa “tentativa de ridicularizar os calouros, por parte dos veteranos”. Em praticamente todas as instituições brasileiras, ele é proibido, mas o que se vê nas ruas é a sua prática constante, muitas vezes acompanhada de atos violentos.

Esta semana, alguns deles ganharam o noticiário nacional. Na segunda-feira, 9, o estudante Bruno César Ferreira, 21, foi atendido no hospital de Leme depois de ter sido ferido com chicote, recebido chutes no abdome, amarrado em poste e abandonado na rua em coma alcoólico. O ato ocorreu durante trote do curso de medicina veterinária da Anhanguera Educacional.

No mesmo dia, em Santa Fé do Sul, a aluna do curso de análise de sistemas Priscila Muniz, 18, recebeu em seu corpo uma mistura de gasolina e creolina. Grávida de três meses, teve queimaduras de segundo grau nas duas coxas, nádegas, costas e cotovelo. A ocorrência envolveu pelo menos outros dois calouros da Fundação Municipal de Educação e Cultura.

A realidade de hoje não é muito diferente de há dez anos, quando se registrou o caso mais grave de trote. Em fevereiro de 1999, na manhã seguinte ao churrasco de recepção aos calouros da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), o corpo de Edison Tsung Chi Hsueh foi encontrado no fundo da piscina da associação atlética da faculdade.

Depois da tragédia, o Conselho Universitário da USP resolveu proibir qualquer tipo de trote que conotasse atos de violência física, moral ou psicológica. Embora os casos de trotes universitários sejam noticiados ano a ano, até o momento não há legislação sobre o assunto. Na Câmara dos Deputados tramitam projetos de leis desde 1976 e vários deles aguardam apenas votação em plenário.

Segundo notícia do portal globo.com, as punições dependem de outras interpretações na legislação, a partir de atos violentos. É o que está fazendo agora o Ministério Público Federal com a investigação se as universidades devem ser responsabilizadas por trotes violentos dentro ou fora de suas dependências. A suspeita é de que elas estão sendo coniventes, já que não punem os alunos, segundo o MP.

RADICALIZA
Em Piracicaba, dois dias depois das agressões aos estudantes nas cidades paulistas, os veteranos praticavam os trotes em calouros pelas ruas. No cruzamento das avenidas Independência e Carlos Martins Sodero estava o calouro Ricardo Lauand, 22, do curso de engenharia mecânica, que já passou pela experiência no curso de engenharia elétrica de uma universidade em Araraquara, a qual frequentou por um ano. “Lá os caras pegaram mais pesado que aqui. Roubaram meu chinelo e rasgaram minha roupa. Aqui o trote é bebida, pegar dinheiro e fazer festa”, disse Lauand.

O veterano Fabrício Moreira diz que o trote em Lauand não acaba no semáforo e vai durar um ano. É que o rapaz vai morar em república, onde as “punições” recebem um outro nome: estágio. “Ele vai ter que lavar, cozinhar, limpar a casa, pegar fila em bancos e fazer as compras.”

Calouro de engenharia mecatrônica, Luigi Favarin de Toledo, 18, também estava no pedágio com os cabelos raspados, sem camisa e com corpo pintado com tinta vermelha. “Só escapei do trote no primeiro dia, mas aqui não há nada que machuque. É apenas bebida e pedir dinheiro.”

Entre os veteranos da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) ninguém gosta de falar sobre o assunto trote. A alegação é a de que a instituição proíbe a prática e que é melhor ficar calado do que ser punido. “É tudo brincadeira, a imprensa radicaliza demais”, diz um esalqueano, que não quis se identificar.

Um outro aluno do curso de agronomia, R.D.S., 22, que está no segundo ano, disse que considera o ritual dos trotes normal, mas reconhece os abusos. “Nem sempre você está de bom humor e é justamente quando o bixo se exalta que a coisa pega”, disse.

Para a estudante M.S.C., 23, atitudes trotistas prejudicam a credibilidade das repúblicas. “A fama das repúblicas ficou tão ruim que estamos com dificuldade para encontrar pessoas para morar. Isso não é bom, precisamos dividir os gastos.”

Para discutir o trote entre as repúblicas, a reportagem entrou em contato com representantes do Conselho das Repúblicas da Esalq, que optaram por não se pronunciar sobre o assunto.

Por falar em estudantes, vale lembrar que em 15 de maio de 2007, houve manifestação deles contra a instituição, devido à divulgação da “Carta Aberta à Comunidade Esalqueana”, disponível no site http://www.esalq.usp.br. O principal parágrafo do texto diz que pode ocorrer até expulsão do aluno que causar, a quem quer que seja, agressão física, moral ou de constrangimento, dentro ou fora da instituição.

NÃO PODE

Na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), a assessoria de imprensa informou que o trote foi “abolido” em todos os campi, inclusive nas dependências externas, em 1998. A determinação foi aprovada pelo Conselho Universitário. “Ano a ano a gente tem insistindo para que não ocorra trote, mas sim uma interação entre o calouro e veterano, com ações mais saudáveis”, explica o coordenador do processo seletivo, Lúcio Marcos Teixeira. O aluno que se sentir ofendido com qualquer ato deve procurar o grupo de apoio, que durante as primeiras semanas fica distribuído pelos corredores da universidade.

Na EEP (Escola de Engenharia de Piracicaba) a regra é a mesma, mas o diretor acadêmico José Carlos Chitolina reconhece que a postura dos alunos fora de sua área foge do controle. “Antes do início da aula, encaminhamos ofício aos veteranos com as boas-vindas e lembramos da proibição. Na recepção aos calouros, damos algumas instruções, inclusive sobre o trote. Felizmente não temos casos de excessos e a interação tem sido boa”, diz Chitolina.

INVASÃO

Segundo o professor titular aposentado da Esalq e docente do curso de mestrado da Uniara (Centro Universitário de Araraquara), Oriowaldo Queda, qualquer prática trotista constitui um ato de violência. “Há uma invasão do corpo”, diz ele, co-autor do livro “Trote na Esalq”, com Antônio Ribeiro de Almeida Júnior (leia quadro nesta página com algumas práticas pesquisadas por eles e publicadas no livro).

Para o professor, é preciso que exista uma ação da promotoria pública para que o trote deixe de existir. “A responsabilidade da não existência do trote é do diretor, do reitor, do responsável pela universidade. Se eles não coíbem de uma forma sistemática e efetiva, o Ministério Público deveria acionar as pessoas e puni-las”, diz Queda.

6 comentários em “Trote na Esalq. É assim mesmo?

  1. Pingback: A violência por trás do trote universitário | Dando Nota

  2. Ana
    1 de março de 2011

    http://www.antitrote.org/depoimentos/?id=4

    Fica a dica, de que nem tudo são flores na “Gloriosa”.

    Curtir

  3. Carolina
    23 de fevereiro de 2011

    Entrei na Esalq há mais de 10 anos e o trote (ralo, como é chamado na ESALQ) é parte importante nos 5 anos de faculdade. Nele, conhecemos quase todos os alunos (independente do ano de ingresso) e isso cria uma “família”. As repúblicas mantem viva essa tradição que nao deve morrer. Fiz grandes amigos por conta dos trotes e afirmo que ninguem precisa ter medo.

    Curtir

  4. xarmys
    1 de abril de 2010

    Esse é o problema, dando nota sem conhecimento de causa, então escuta aí 13 de maio é uns dos dias mais incríveis e inesqueciveis da vida de um esalqueano.
    Então volte sim a reportagem filme a alegria e a felicidade da galera…
    Ah, sem demagogia!!!!

    Curtir

  5. WoW
    13 de março de 2010

    então….
    eu entrei esse ano na esalq, tenho o chapeu e um apelido
    as mil maravilhas nenhum lugar é

    tipo, pra ganhah a assinatura vc deve c apresentah pro “doutores”(veteranos) e isso pode ser d diversas formas (umas nem tão legais)

    mas a questão da amizade, companherismo… isso eh eterno na esalq

    e outra coisa, a materia do fantastico dos carinha rolando na lama
    eh moh mintira, eu tava lah e na verdade foram dois doutores que estavam brincando, eh q foi uma festa num gramadão e tinha chovido muito e os cara jah estavam trebados….

    Curtir

  6. Flávia Romanelli
    4 de março de 2010

    No Fantástico mostrou uma festa de esalqueanos numa chácara onde os bixos eram obrigados a nadar na lama! Nada simpático. Ah conheço uma cidade que devia mudar de nome pra Sucupira rsrs

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Tradutor

Receba notificações de posts por e-mail.

Follow Dando Nota on WordPress.com

Instagram

Lorenzo, 22 meses! #padrinhobabão Job da noite: Rádio Câmara Web Lorenzo fazendo arte, ensinado pelo padrinho! No filter #piracicaba250anos #piracicaba250anos #PiraParade #Piracicaba250anos Festa na roça #piracicaba250anos Jornalista sendo jornalista até no bar!
%d blogueiros gostam disto: