Dando Nota

Rodrigo Alves

Quando os sinos não soam…

 

Na edição do JP de sábado (16/01/2010), uma matéria chamou a minha atenção. O título era o seguinte: Sino deixa saudades no Jardim das Carmelitas.

O texto — com a assinatura de Ronaldo Victória — comentava da “proibição” há seis meses do soar dos sinos pelo convento das Carmelitas, às 5h e às 6h, horários em que acontecem missas no local.

Segundo as madres ouvidas pela reportagem, esta foi uma recomendação da Cúria Diocesana por causa de um abaixo-assinado feito por moradores, que reclamavam do barulho dos sinos. Em outros horários o sino ainda toca: às 10h45, 11h, 12, 14, 16h45 e 17h.

Sou de uma pequena cidade do interior mineiro e fiquei sensibilizado ao ler o texto de Ronaldo. Passei a minha infância ouvindo os sinos anunciarem as missas. E ele serve também para anunciar uma morte. Além disso, o auto falante da igreja é usado para anunciar documentos perdidos, avisos fúnebres e da prefeitura, entre outras coisas. Temos o sino, o canto da Ave Maria às seis horas, os avisos pelo auto falante, as badaladas do relógio a cada hora…

Quando vim morar em Piracicaba, uma coincidência fez que o meu apartamento fosse bem próximo da Catedral de Santo Antônio, onde ainda existe as badaladas do relógio a cada meia hora. O sino para as missas também não soa mais, no entanto, há pouco tempo ainda era usado. Não sei por qual motivo o deixaram de lado.

Na reportagem de Ronaldo, alguns moradores manifestaram sentimento nostálgico em relação ao soar dos sinos nestes dois horários. E declararam que não chegava a incomodar, mas que alguns “recentes” habitantes do bairro das Carmelitas venceram com o abaixo-assinado.

Ronaldo aborda o clima tranquilo do bairro, o bom relacionamento entre os vizinhos, a segurança do local. Características que até fazem que aquele local nem parecer um bairro da área central de Piracicaba, uma cidade com mais de 400 mil habitantes.

Mas parece que o soar dos sinos incomoda algumas pessoas. E eu fico perguntando: como pode algo tão belo fazer mal a alguém? Quem seriam estas pessoas? Por que não utilizaram seu poder de mobilização para fazer o bem? Estas pessoas não estão contentes com o privilégio em viver num bairro calmo? Então o que ainda fazem ali?

Sinceramente, não consegui encontrar resposta para estas perguntas. 

Será que a vida é tão amarga que sequer conseguimos mais entender a beleza do soar dos sinos?

9 comentários em “Quando os sinos não soam…

  1. FABIO
    4 de julho de 2012

    oS RECLAMADORES DO BARULHO DOS SINOS, DEVERIAM RECLAMAR QUANDO OS MALDITOS TIMES DE FUTEBOL GANHAM, OU SEI LÁ QUE MERDA, E O POVO SOLTA FOGOS A QUALQUER HORA DO DIA E DA NOITE. OS RECLAMADORES DOS SINOS DEVERIAM RECLAMAR DOS TIROTEIOS NAS NOSSAS PORTAS.
    E QUANTO À POBRE COITADA QUE COMENTOU PRIMEIRO LÁ EM CIMA, BOM PRA VOCE MOÇA, REALMENTE, SÓ A MISERICÓRDIA DIVINA. VOCE TEM O MÓ JEITÃO DE SOLTEIRONA INTELECTUAL INFELIZ

    BEIJNOS

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  2. luciana
    25 de abril de 2011

    Não sou moradora da cidade mas acho justa a decisão da justiça .No Brasil o culto de qualquer religião é livre agora imagine se todas religiões decidirem bater tambor,cantar e gritar 10 vezes por dia nas ruas apartir das 5 da manhã,cultuando seus deuses .O que é para um é para todos .Pratiquem a religião em silêncio,sem atrapalhar o sossego dos outros,para que bater sino ,gritar e demostrar públicamente sua fé ,certo estava Friedrich Nietzsche quando disse : Não posso acreditar num Deus que quer ser louvado o tempo todo.

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  3. fotografandoondeopeixepara
    13 de fevereiro de 2010

    Ei Rodrigo, beleza?

    Bom, sobre essa história, faltam informações e também há um equívoco.
    Em primeiro lugar, não existe abaixo-assinado, a freira mentiu. Ninguém é obrigado em ter um sino as cinco da manhã na orelha. Religião é opção. Pararam de tocar o sino porque é lei. Apenas um morador (que não vou citar o nome), foi até lá e pediu, repito, pediu para não tocar o sino as cinco e as seis, pois são duas horas de sono a mais para pessoas que tem que trabalhar. Pimenta nos olhos dos outros é refresco né? Fazer barulho de madrugada é ‘burlar’ a lei, sendo assim, eram freiras foras-da-lei.
    Não sou morador do bairro, mas foi uma vitória calar esse sino.

    No mais, um grande abraço.

    Fábio.

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  4. AnaMarly de Oliveira Jacobino
    22 de janeiro de 2010

    O badalar do sino nos aquieta a alma e nos faz explorar essa quietude. Momento precioso em que nos encontramos com o nosso “Eu”. O sino nos ajuda na meditação e no poder de nos conhecermos melhor. Penso que neste mundo de tão aclamada racionalidade não há mais lugar para vislumbrar toda a beleza que existe dento de nós. Não falo de religião, pois o mundo está tão descrente que não quer mais ouvir o tocar do sino com medo de pensar em Deus. Ana Marly de OLiveira Jacobino

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  5. Flávia Romanelli
    21 de janeiro de 2010

    Eu fico dividida com esse assunto. Também sempre morei no centro e estou acostumada a ouvir os sinos da Catedral, mas pra que incomodar o sono de quem tem de trabalhar para anunciar a missa das 5 e das 6 horas da manhã? Ele continua a tocar em outros horários!

    Bjão

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  6. Conde de Antuérpia
    21 de janeiro de 2010

    Era o que faltava agora: reclamarem do sino. Como bem disse o Adriano, reclamação típica de quem só pensa no conforto próprio apenas…O mundo está ficando muito chato!

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  7. Adriano
    19 de janeiro de 2010

    Não sei se a resposta do Érico foi para a Renata ou para o post do Rodrigo, mas se foi, a parte que diz “Colocar-se no lugar dos incomodados pode ser um belo exercício de respeito à sensiblidade alheia” não me parece bem colocada, pois ambos dizem que moram praticamente ao lado da Catedral de Santo Antonio e convivem muito bem com o som do sino. De qualquer maneira é para isso que servem os comentários. Então aqui vai o meu: Fiquei um tanto quanto impressionado com a organização coletiva para calar esta representação de uma tradição que nos remete ao cristianismo. Cristianismo este que nos dias de hoje, é uma das poucas manifestações de que o homem pode ser bom e fazer o bem. Quispéramos nós que outros incômodos coletivos tivessem este tipo de comportamento e disposição. Incômodos como a fome, a miséria, a falta de acesso a um sistema de saúde digno, a educação e às desigualdades em geral. Entretanto, o que vemos é um tipo de mobilização que vê o seu próprio umbigo. Se isso me atinge, eu tomo iniciativa. Se não me atinge, não me interessa. Por isso eu digo, é uma pena que a energia de pessoas seja canalisada apenas para o seu bem estar. É o reflexo dos dias de hoje e só posso dizer que isso é muito triste.

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  8. Érico San Juan
    19 de janeiro de 2010

    O que é poético para uns, pode ser incômodo para outros. Colocar-se no lugar dos incomodados pode ser um belo exercício de respeito à sensiblidade alheia.

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  9. Renata
    18 de janeiro de 2010

    Oi Ro… Não pude deixar de me sensibilizar com este post. Como vc sabe tbm nasci no interior, além de passar boa parte da minha infância ( pra não dizer da minha vida) em Ouro Preto. Lá, os sinos são usados não só para anunciar as missas ou marcar as horas, os sinos são usados para as mais diversas manifestações religiosas e até para anunciar uma morte. É como se fosse uma música e cada qual tem seu significado. Pelo badalar do sino dá até para saber se a pessoa que morreu é do sexo masculino ou feminino. Sabe-se também se o que se anuncia é uma missa, uma procissão ou dia santo, enfim… Como vc meu apto. (vc sabe) fica próximo à Catedral de Santo Antonio, ou seja, os sinos fazem parte da minha vida e, no fim das contas vc se acostuma tanto ao seu badalar que o que causa estranheza é qdo eles não soam… Falta alguma coisa… Então…fico me perguntando… que mundo é esse em que estamos vivendo onde o soar de um sino não toca mais no coração?

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Publicado em 17 de janeiro de 2010 por em Interrogação.

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