Dando Nota

Rodrigo Alves

Espetáculo “As Meninas”, de Maitê Proença, faz plateia rir de situação trágica

as meninas

O espetáculo “As Meninas”, de Maitê Proença e Luiz Carlos Goés, teve suas últimas apresentações entre os dias 18 e 20 de setembro, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, no Rio de Janeiro.

A trama vai ganhar nova temporada no Estado de São Paulo a partir de outubro, a começar pela cidade de Campinas, onde Maitê viveu parte de sua vida, e depois pela capital.

“As Meninas” traz um time de cinco excelentes atrizes e suas situações discorrem a partir de um velório, com cenas que transitam entre o cômico e o trágico. Portanto, paulistanos e campineiros, fiquem atentos: peça de primeiríssima linha chega por aí. Simplesmente imperdível!

Num primeiro momento, o que chama atenção no espetáculo é a força de seu texto. A atriz Vanessa Gerbelli dá vida a Consuelo, uma jovem mãe que é assassinada pelo marido por ter cometido adultério. Diante da filha órfã e uma amiga, a morta levanta do caixão e inicia uma viagem a seu passado.

Ao redor do seu caixão estão apenas mulheres, cada uma com sua exuberante personalidade e instigante interpretação: sua filha Rubi (interpretada por Sara Antunes); Luzia, a melhor amiga da garota (Patrícia Pinho); a mãe Berta (Analu Prestes) e Clarisse Derzié (responsável por vários papéis, entre eles o de Linda, mãe do assassino).

As mulheres vivem as mais diferentes sensações, inusitadas para um velório: gargalham, deitam e rolam, dançam, brigam, se abraçam, revivem o passado, falam de suas frustrações e anseios, questionam o papel da mulher na sociedade e se mostram até sem pudores.

Vale lembrar que Maitê se inspirou em seu último livro, Uma Vida Inventada, lançado em 2008 pela Ediouro no Brasil e pela Oficina do Livro em Portugal.

Na literatura existe um certo suspense que ela mantém, afirmando fundir realidade com ficção, e isto é transposto para o teatro. Na vida real, o pai de Maitê se chamava Eduardo e era promotor de justiça e procurador do Estado. Na obra é chamado de Carlos. Margot, nome verdadeiro de sua mãe, é substituído por Consuelo. Professora de filosofia e música, ela se tornou Secretária de Cultura de Campinas. Aliás, esta cidade até é citada na trama.

O que impressiona é o desprendimento de Maitê para contar a sua própria história com o viés cômico, feminino principalmente, e até infantil, já que são as duas crianças que tomam conta das cenas. Rubi é Maitê e, provavelmente, tem a mesma idade no teatro que tinha a atriz quando a mãe morreu: 12 anos.

Para quem teve a oportunidade de ler o livro, como eu, é melhor ainda. Você se identifica com a narrativa e percebe como a parceria Luiz Carlos Goés/Maitê foi importante. E se por um lado a história parece familiar, por outro, a comédia das atrizes impõe a novidade e o elemento surpresa. Não é uma leitura na íntegra do texto, mas uma adaptação muito bem pensada.

De nada adiantaria a comicidade do texto se não houvesse elenco de primeira para encará-lo, além da excelente direção de Amir Haddad. Luzia, a amiga de Rubi, rouba risadas da plateia em várias ocasiões: “pensei que morto ficasse abatido, mas você está quase bonita”, diz a pequena à defunta, e de “queria que minha mãe morresse só um pouquinho pra eu ficar estranha assim como você”.

A escolha das músicas que compõem a peça é de Alessandro Persson. A sonoridade está presente antes mesmo de o texto ser encenado, quando o público sobe as escadas do teatro e se depara com as mulheres cantarolando e dançando. Em cena, todas juntas, interpretam com afinação a Fita Amarela de Noel Rosa e até ensaiam certa percussão. Outras canções tomam conta da trama, como o momento em que Consuelo se debruça sobre o caixão e entona um trecho da opereta A Viúva Alegre.

Somados à trilha sonora, atuação impactante e a força do texto, “As Meninas” se destaca ainda pelo cuidado plástico na escolha de um figurino onírico, cenário que remete a um velório épico e iluminação versátil, que dá conta de acompanhar distintas situações.

Em tempo:
Estive no Rio de Janeiro para assistir o espetáculo no último dia 18 e não me contive em conversar com a atriz Sara Antunes, que vive o papel de Rubi em “As Meninas”.

Para quem não se lembra, Sara participou em Piracicaba do 3º Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba), em novembro de 2008, com o monólogo Negrinha, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz e melhor espetáculo na mostra competitiva. Agora, este mesmo espetáculo ganhou incentivo da Petrobras, disse Sara, e vai percorrer o Nordeste. Detalhe: a trama esteve no Rio de Janeiro, foi sucesso entre a crítica e abriu as portas para a atriz em “As Meninas”. A crítica já a classifica como uma das grandes revelações das artes cênicas.

Três situações me atraíram até “As Meninas”: a minha coincidente viagem de férias ao Rio, a adaptação de Maitê e a presença de Sara no elenco. Posso dizer, sem dúvida alguma, que estou feliz por ter presenciado “As Meninas” e que se puder irei novamente à Campinas.

Talvez uma das grandes sensações da noite foi ter visto em meio às fileiras do Teatro Laura Alvim, nada menos que a própria Maitê. Ao leitor, informo mais uma vez que não tirei nenhuma foto com a atriz porque, como já disse anteriormente, não gosto de fazer a linha tiete. No entanto, deixo registrado a emoção em ver uma pessoa que admiro não apenas pelo trabalho na televisão.

Ao leitor, se ainda restam dúvidas se merece ou não ser assistido, vale lembrar que o espetáculo foi classificado com um dos três melhores da temporada em terras cariocas.

+ do mesmo
Trailer do espetáculo As Meninas

Entrevista com Maitê Proença no Programa do Jô

4 comentários em “Espetáculo “As Meninas”, de Maitê Proença, faz plateia rir de situação trágica

  1. Pingback: 4ª Mostra de Teatro São Pedro e Águas de São Pedro Em Cena « Dando Nota

  2. Pingback: Maitê Proença ofendeu ou não os portugueses? « Dando Nota

  3. port
    14 de outubro de 2009

    “Virei macrobiótica em Portugal. Conheci um brasileiro e uma holandesa casados, que viviam numa aldeia da região do Algarve. Ali, todas as mulheres se vestiam de preto e toda a gente vivia a base de trocas, comendo o que era produzido dentro da comunidade. Trocava-se amêndoas por repolho, tomates por ovos. Na época, há mais de vinte anos, perto da capital, Albufeira, ainda havia lugares assim recolhidos. Emprestaram-me uma casinha vazia que tinha a porta trancada – a janela era aberta e por ela eu entrava. A holandesa contou-me que havia se curado de uma cegueira com a alimentação macrô. Encantei-me. Por um mês mergulhei naquela forma de vida e até hoje carrego resquícios dessa temporada.”

    Claro que se nota. É burra que até doí…

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  4. Adriano Kovalent - ESALQ/USP
    24 de setembro de 2009

    Um dos melhores programas feitos no Rio… adorei a peça, além de tudo foi mágico ver a peça depois de ter lido o livro.

    A história me emocionou várias vezes, e me levou ao riso tantas outras.

    Ver a Maitê dando toda a atenção para os espectadores foi lindo, de uma simplicidade que eu não imaginava, isso só fez com que eu me tornasse mais fã dessa mulher que tem uma história de vida incrível e que além de ser muito inteligente e escrever muito bem ainda é linda.

    Atrizes ótimas para um texto melhor ainda.

    Totalmente excelente!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Publicado às 23 de setembro de 2009 por em Teatro e marcado , , , , , , .

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