Dando Nota

Rodrigo Alves

“Negrinha” no 3º Fentepira

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“Obra de arte é para ser apreciada, não se mexe e não se propõe qualquer alteração”. A frase faz referência ao solo teatral “Negrinha”. Ela foi dita durante uma conversa informal por um dos integrantes do júri do 3º Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba) e reflete a unanimidade entre os que assistiram à apresentação da trama na última sexta-feira, 28/11/2008, quando saí do Teatro Municipal “Dr. Losso Netto” com a sensação de que a adaptação do conto de Monteiro Lobato receberia pelo menos o troféu de melhor espetáculo.

De fato o troféu foi conquistado dois dias depois, no encerramento do festival, e também o prêmio de melhor atriz para Sara Antunes e melhor cenário para Renato Bolelli, além de indicação de melhor direção para Luiz Fernando Marques.

O solo teve capacidade para 100 pessoas, que acomodadas no tablado do Teatro presenciaram a transformação do espaço numa penumbra. Apenas algumas velas permitiram que as pessoas visualizassem o simples cenário: duas penteadeiras em cantos extremos, um banquinho e cortinas brancas que representavam a casa-grande, ou melhor, a Casa de Açúcar.

Em meio a este clima, entra em cena Negrinha, filha de escrava, nascida na senzala e criada pela patroa, que lhe tratava à base de beliscões e odiava qualquer choro de criança. A atuação de Sara demonstrou a força que os sentidos exercem sobre as pessoas: a palavra, o sons, o cheiro e a cor.

Negrinha fez o público voltar ao passado e sentir o drama da escravidão e do processo de libertação dos escravos. A narrativa apontou as crendices do período, como a de que casca de alho é um ótimo remédio para a pele, principalmente a dos negros, que pode se tornar esbranquiçada. Ao revirar as cascas, Negrinha fez que o cheiro do alho se espalhasse por todo o teatro.

Negrinha cativou o plateia também pela interatividade. “Que cor você tem?”, perguntava um a um. Eu, por estar ao lado de um dos pontos centrais da trama, acabei me transformando no “cobaia” da personagem, mas me diverti muito. “Pára de escrever e brinca comigo!”, disse, ao perceber que estava com caneta e caderno de anotações.

Recebi a frase com susto. Na sequência, Negrinha me apelidou. Disse que eu era “esverdeado” e fez com que eu definisse a cor de parte da plateia. Ao perceber que estava repetindo sempre as cores “branca, moreno, mulato, negro”, ela induziu o riso dos presentes: “o esverdeado não tem criatividade”. Logo, a primeira pessoa que vi disse: “cor de rosa”. Mais risos do público e Negrinha acrescenta: “aquele tem cor de burro quando foge!”

Depois disso, Negrinha começa a brincar com os grãos. “O milho é amarelo, a canjica é branca e o feijão é preto”. Na base de risadas, ela joga o milho com toda força em minha direção. E diz: “brinca comigo”, como o real pedido de uma criança de pelo menos 10 anos. Pego o milho e jogo em sua direção. E Negrinha ri, pede mais. “Pode jogar, dói, mas é uma brincadeira divertida! E Negrinha gosta de brincar!”, disse, denotando a solidão de viver em um ambiente escuro, sem carinho e atenção.

Mas não foi apenas o fato de a atriz apostar na brincadeira cênica que me prendeu ao espetáculo, mas sim por presenciar uma personagem se transformar com tanta facilidade. Seu jeito meigo deu lugar à ira e até nos fez chorar em alguns momentos, pelas injustiças brancas cometidas ao longo dos séculos. “A minha liberdade termina aonde começa o seu tapete”, disse. “O açúcar era preto, mas o branco deu um jeito e o fez branco!”

Ao final da apresentação, o público, antes de aplaudir, fez silêncio. “Estão todos rezando”, disse um dos integrantes do júri. Provavelmente havia ali uma oração, mas com certeza era na tentativa de redimir todos os erros do passado, uma espécie de sentimento de culpa despertado naquele momento por Sara Antunes.

+ do mesmo
Conto “Negrinha”, de Monteiro Lobato
Texto sobre o trabalho de pesquisa e concepção do espetáculo

Foto: Adalberto Lima 

2 comentários em ““Negrinha” no 3º Fentepira

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Publicado às 2 de dezembro de 2008 por em Teatro e marcado , , , .

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